Luiz Roque

Cachoeira do Sul/RS, 1979

  • PIKNIK (2007)
    16mm / vídeo
    5' em loop
    Em colaboração com Mariana Xavier
  • TREINAMENTO (2007)
    16mm / vídeo, mudo
    2' em loop
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Luiz Roque

Trabalha com cinema, vídeo e fotografia. Seus trabalhos já participaram de numerosas exposições além de festivais e mostras de cinema e vídeo no Brasil e exterior. Em 2007 graduou-se em Artes Visuais na UFRGS com o trabalho de conclusão de curso “Ficções em Videoarte”, uma breve abordagem sobre o crescente interesse dos artistas contemporâneos pela linguagem cinematográfica.

Cinema de exposição

Fernanda Albuquerque

Se obras de arte fossem classificadas por gênero (comédia, ação, suspense, drama), os trabalhos de Luiz Roque talvez pudessem ser definidos como um filme de ação com uma boa dose de comédia e um romance embalado por uma atmosfera de suspense. A comparação pode parecer absurda, mas basta assistir aos vídeos em cartaz no Paço das Artes para perceber que ela não é tão descabida assim. Treinamento e PIKNIK flertam o tempo todo com o cinema: no uso da película (ambos são filmados em 16mm), na opção pela sala escura (ainda que sem a formatação de uma sala de projeção convencional) e, mais importante, no emprego de recursos caros à linguagem cinematográfica, como atores, fotografia de cena, trilha sonora, montagem, etc. Tudo isso sem falar no uso da ficção como estratégia para contar uma história.

Em Treinamento, Luiz Roque é submetido a um verdadeiro teste de resistência. Bombas, tortas de merengue e bexigas d’água são arremessadas contra o artista, que protagoniza cenas inspiradas em filmes de Van Damme e Chuck Norris, entre outros. Embora o vídeo evoque uma certa tensão, potencializada pela ausência de som, o humor e o burlesco predominam nos hilários exercícios estrelados por Luiz – quase todos exibidos em câmera lenta, outra referência importante ao cinema de ação. Agilidade, disposição e persistência são algumas habilidades em jogo no treinamento, qualidades que não deixam de evocar as aptidões solicitadas a um jovem artista desejoso de fazer circular sua produção. Daí a possibilidade de enxergarmos o filme como uma espécie de auto-retrato animado – nos dois sentidos sugeridos pela palavra animação. A diferença é que, aqui, o auto-retrato não é produzido apenas pelo artista. Como em qualquer obra cinematográfica, Roque Luiz se vale de uma equipe – nesse caso bastante enxuta, de apenas cinco pessoas – para a execução da peça, aspecto evidenciado pelos créditos finais.

O mesmo acontece em PIKNIK. Desenvolvido em parceria com Mariana Xavier, ele é fruto do trabalho de quinze profissionais, entre atores, produtores, músico, fotógrafo, câmera, etc. O filme retrata um piquenique entre dois casais. O longo beijo da cena inicial seguido da imagem de uma linda e colorida torta dá o tom da história, cuja atmosfera de deleite e excitação deixa em suspenso a possibilidade de uma orgia entre os quatro participantes. A ideia de suspensão é adensada por outros três elementos: o misterioso casting inicial, que apresenta nove personagens, dos quais apenas quatro participam da trama; a enigmática trilha sonora, que figura em primeiro plano durante todo o vídeo; e a fumaça. Mais uma vez, a protagonista de Estufa e Projeto Vermelho – que, diga-se de passagem, também faz ponta em Treinamento – entra em cena no trabalho de Luiz Roque. Mas aqui ela ganha um papel diferente: de atriz principal passa a coadjuvante, ao detonar uma ação entre os personagens da história. Em meio ao piquenique, os casais são surpreendidos por uma fumaça leve e branca, que começa a tomar conta do parque. A reação ao estranho não se reverte em susto ou hesitação, mas interesse e satisfação. Há um certo júbilo no passeio entre as nuvens recém- formadas, como se o dito popular “onde há fumaça há fogo” não fizesse qualquer sentido naquele contexto.

Diante dos trabalhos de Luiz Roque é possível se perguntar o que faz deles filmes de exposição. A simples apresentação em um espaço de arte? – afinal de contas, ambos poderiam ser exibidos como curtas em festivais mais experimentais. Ou a problematização de certas regras e conceitos do cinema? A questão dá pano pra manga e não deixa de ser comum a produções que lançam mão da ficção como estratégia narrativa, recurso consagrado pelo cinema mais ainda pouco utilizado pela videoarte no Brasil, historicamente voltada ao documental.
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