• Imagem da exposição "O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva", de Bruno Novaes
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Bruno Novaes

Bruno Novaes possui especialização em artes visuais pela Unesp (2012) e licenciatura em arte-educação pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2010). Participou do Ateliê Hermes Artes Visuais (2015) e do Grupo Aluga-se (2016/18). É artista representado pela OMA Galeria (SP) e pela Galeria OÁ (ES). Tem obras no acervo do Museu da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, na Prefeitura de Santo André e na Pinacoteca e Fundação das Artes, em São Caetano do Sul. Participou da 33ª Bienal de Arte de São Paulo como artista aquarelista da obra de Mark Dion. Apresentou exposições individuais na OMA Galeria e na Casa do Olhar Luiz Sacilotto (2018), realizou ações no Sesc Pompeia (2017), no Sesc São Caetano (2018) e no Festival de Inverno de São João del-Rei (2018). Foi premiado pela editora Lamparina Luminosa e publicou o livro "Alugo para rapazes" (2018), lançado na SP-ARTE. 

Sua produção passa por questões como identidade, memória e afeto. Por meio do desenho, da escrita e da aquarela, predominantemente, se percebe no exercício de mapear, catalogar ou classificar os assuntos que observa. Cria, da mistura entre o que é público e o que é íntimo, narrativas que estão no limiar da ficção e da realidade.

Mirtes Oliveira

Abaixo, a entrevista de Bruno Novaes para a crítica Mirtes Marins de Oliveira sobre a mostra "O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva".


Mirtes Marins de Oliveira: Inicio perguntando sobre a origem de suas práticas artísticas. Parte da relevância dos trabalhos que realiza reside nos problemas que coloca diante de uma realidade social e política cada vez mais tensa a respeito das questões de sexualidade e gênero no ambiente escolar e na compreensão do papel da escola e da educação. Como você localiza sua produção nesse contexto?

Bruno Novaes: Bem, percebo alguns pontos de origem na minha prática. A começar pela palavra que sempre foi importante para mim e para a qual há uma relação anterior mesmo da minha produção em artes visuais. Como cantor, a palavra já era meu interesse. Minha monografia na pós- graduação, inclusive, foi a respeito da palavra na canção popular brasileira. Acho importante dizer isso, porque acredito que seja desse lugar que parto muitas vezes. Em quase todos os trabalhos a palavra chega antes da imagem para mim no processo criativo. Seja como som, como elemento gráfico, como título. Me graduei em Design, e apesar de nunca ter trabalho como designer, noto também que existe o olhar naquilo que faço de quem se inclinou para o assunto. Fiz minha licenciatura em Arte e fui parar na escola. No ambiente escolar fiquei por uma década. Estar ali era, de alguma forma, voltar à minha brincadeira favorita de infância: a escolinha no fundo da casa da rua Maceió, ambiente equipado com lousa e carteiras de verdade, já que meu avô era marceneiro. Acredito que este seja outro lugar de origem pra mim. Com o passar do tempo, depois de assumir minha produção visual, é que consigo ver que esses pontos se confundem e se cruzam. São como matrizes adormecidas, que de vez em quando pulsam e trocam de lugares.

Sobre o contexto da educação, nos últimos anos, o fazer artístico se deu também junto aos alunos, de forma relacional, misturando ateliê e sala de aula, caminhando para uma noção de educação mais ampla. Isso é equivalente também na exposição, quando o público participa. É educativo mesmo fora dos muros da escola. Me interessa esse lugar entre arte e arte/educação. Produzir dentro e fora de sala de aula enquanto o cenário brasileiro foi se tensionando, naturalmente também me afetou. Sala de aula, vida e trabalho, se misturam. E por esse corpo também passam as questões de sexualidade que você comenta. Há uma relação entre o que vi ali depois que voltei para aquele ambiente, já adulto, e o que passei naquele lugar quando criança e adolescente: piadas, opressão, o crescer ali dentro. Isso não foi e nem é só meu, mas estar ali como professor e viver aquilo de novo, faz com que meu trabalho toque nessas questões. Gosto desse lugar de quem observa a vida ao redor, silenciosamente. Coisas que poderiam ser privadas e íntimas, se confundem e tomam espaço público, termos, documentos, protocolos da escola ganham outros significados.

MMO: Peço que você relate, na medida do possível e de seu interesse, a questão de seu desligamento de uma escola particular que resultou nos documentos expostos na mostra. Por que decidiu transformar esse informe— seu desligamento — em obra?

BN: Pela troca e relação que eu tinha com aqueles alunos, nessa escola, durante seis anos intensos, produzindo junto com eles muitos dos meus trabalhos. Essa mistura de vida pessoal e trabalho, essa mistura que está presente na minha produção, de certa forma é também responsável pela ruptura. Mas o que me assustou foi a maneira conturbada e preconceituosa desse desligamento, além de silenciosa e velada. Acho que o silêncio é o que mais incomodou. Depois de um tempo para digerir é que as ideias chegaram. Entender o que aconteceu, porquê e para quê, algo que ocorre também com outros professores, e poder dar voz a essas vozes.

MMO: Como professor que também é artista, ou artista que também é professor, você verifica diferenças em termos de recepção dos públicos? É necessário estar na condição de aluno para uma compreensão mais sensível de seu trabalho? Você percebe diferenças nessa recepção?

BN: Como quase todo o público é ou já foi aluno, o resgate é realizado pela memória e cada geração acaba tendo a sua percepção de acordo com o tipo de escola que viveu. Há também quem se coloca no lugar do professor, ou professores que se percebem novamente professores ali.

MMO: A escola que você evoca nas instalações, desenhos, objetos parece não existir mais, principalmente porque as recobre de um olhar sensível e amoroso. Você poderia falar das origens de seu trabalho e se existe de fato essa perspectiva? Claro que alguns trabalhos são comentários muito ácidos sobre a questão do bullying e dos preconceitos presentes no ambiente escolar, mas verifico uma ambiguidade nesse tópico.

BN: Totalmente. Essa ambiguidade me interessa. Não acho que somente gritando é possível de ser ouvido, gosto das sutilezas, do sussurro. Me interessa essa amorosidade para falar de questões ácidas e difíceis. Talvez esse olhar sensível esteja associado ao fazer naquele espaço, de estar verdadeiramente presente nele e das relações que construí ali. Há alguns anos, esse lugar não existe mais para mim. Hoje essas escolas acabam sendo semente que ajudam a recuperar a memória do primeiro espaço escolar, a escolinha nos fundos da casa. E memórias podem se confundir, idealizadas ou romantizadas. Pode ser que eu esteja de novo brincando de escolinha. Ou que nunca deixei de brincar.
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