Coletivo Cartográfico + Jorge Soledar

São Paulo/SP, 2011

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Coletivo Cartográfico + Jorge Soledar

O Cartográfico é um coletivo autogestionado pelas artistas Carolina Nóbrega, Fabiane Carneiro e Monica Galvão. Seus trabalhos se constroem na interface entre a dança contemporânea e outras áreas, como as artes visuais e o urbanismo. Suas ações coreográficas e/ou performativas procuram boicotar a noção do corpo como uma verdade ontológica e neutra, para explicitar as políticas por detrás das relações de co-autoria do corpo com o meio. O Coletivo já foi contemplado por duas edições do Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo; por uma edição do ProAC Primeiras Obras de Dança; e por uma edição do Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. Seus trabalhos já circularam por diversas cidades de diferentes estados brasileiros, bem como integraram a programação de inúmeras mostras, festivais e seminários de dança, performance, intervenção urbana, artes visuais e urbanismo.

Jorge Soledar é artista e professor do Departamento de Artes Visuais da UFRJ e do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula [Rio de Janeiro]. Doutor em linguagens visuais pela UFRJ [2017], mestre em poéticas interdisciplinares pela mesma instituição [2012] e bacharel em Artes Plásticas com habilitação em História, Teoria e Crítica de Arte pela UFRGS [Porto Alegre, 2008]. Seus trabalhos expressam cenas e maquinações de imobilidade mediante cruzamentos entre linguagens visuais, escultóricas, fotográficas e corporais.
 

Marcio Harum

Abaixo, a entrevista do Coletivo Cartográfico, em companhia do artista Jorge Soledar, para o crítico Marcio Harum sobre a mostra "acerca do fracasso das formas".

Marcio Harum: Gostaria que pudessem mencionar ao menos brevemente, quando, onde, por que e como viram-se reunidas sob a identidade artística Coletivo Cartográfico. E como se originou a vinda de Jorge como associado a esse projeto? Indago para que comentem mais especificamente sobre a natureza do trabalho apresentada por um grupo de dança contemporânea e artes visuais de São Paulo em diálogo com um artista e professor no Rio de Janeiro.

Coletivo Cartográfico: Sempre perturbamos as fronteiras da dança com outras áreas. Nós mesmas possuímos formações e atuações distintas: arquitetura e urbanismo, história, teatro contemporâneo e performance. Entendemos “coreografia” como modos de determinação de corpos e deslocamentos sociais, e a dança como tecnologia para questionamentos e desvios. Vemos a dança como uma disciplina cartográfica. Em 2011, na cidade de São Paulo, aconteceu nossa primeira ação conjunta, uma residência em uma casa que seria demolida logo depois. Ali se constituíram nossas questões fundamentais: a transformação do corpo na insistente e irreversível fricção com as coisas. Após esse processo, partimos para o confronto com a cidade e com objetos e materialidades produzidas pelo homem. Buscando desenvolver a relação corpo-coisa até a exaustão e transformação da estabilidade original de ambos. Em 2016, nos apresentaram o trabalho de instalação e performance de Jorge Soledar. Tínhamos em comum o desejo de nos referirmos à aniquilação humana através de objetos. Apesar das fronteiras geográficas e da suposta distinção entre áreas de atuação, nos sentimos muito próximos desde o início, como habitantes de um mesmo território.

MH: Entre espaços em que a força da ruína e do canteiro de obras vem guiando vocês, compreendo que esse trabalho venha sendo realizado desde 2017, com a apresentação da performance duracional de 24h no escombro do Bom Retiro. Para a Temporada 2019 do Paço das Artes, o projeto selecionado de vídeoinstalação Acerca do Fracasso das Formas conta com 3 canais em monitores de TVs para a exibição de 9 vídeos, 33 fotografias sobre parede, 9 textos em blocos + imagens sobre a superfície de um tampo de mesa expositiva e residuais matéricos e imagéticos provenientes de mobiliário e objetos domésticos como cama, mesa de jantar, sofás, eletrodomésticos, roupas. Com os corpos que temos para atuar na vida hoje, vocês não sentem-se ingenuamente anacrônicos por atacar símbolos do ambiente burguês como nos anos 1960? Percebo um romantismo atemporal da intenção, uma saudável desatualização para dias incômodos. É notória a ausência de projetos críticos quanto a nossa existência online e o excesso do uso tecnológico presentes no sistema de arte ao nosso redor. Nunca são os 'input/communication devices' os objetos a serem destruídos e reposicionados na atualidade, que são caros por serem novos, datados e baratos por estarem usados ou simplesmente lixo - celulares, computadores, TVs de plasma, câmeras e seus acessórios.

Jorge Soledar: Penso que o recorte no mobiliário expressa, simbolicamente, uma ocupação mais extensiva do corpo - tomado de carne e osso. Há uma vontade antropomórfica e crítica que se sobressai em relação à outras dimensões e utensílios de desumanização da vida.

CC: Distintas temporalidades históricas podem conviver. A ruptura com as formas arcaicas da nossa sociedade colonial pouco se efetivou. Estamos assistindo à volta de discursividades e pulsões sociais que poderiam parecer ter sido superadas, mas que, ao contrário, permanecem em disputa simbólica, através de narrativas revisionistas e negacionistas da história. Não há mais como ignorar as raízes escravocratas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, preconceituosas e elitistas da sociedade. Foi em 1949 que George Orwell escreveu seu romance (então futurista) “1984”. Não é de hoje o assombro com o avanço tecnológico. O que nos assombrou não foi a velha distopia da dominação da humanidade através de dispositivos eletrônicos e virtuais; mas a velhíssima distopia de uma classe dominante sustentando seu assento em sofás empoeirados às custas da ruína de todos.

MH: Acerca do Fracasso das Formas tem fotografias de Cacá Bernardes, vídeo da Bruta Flor Filmes e expografia de Pontogor. Poderiam explicar também como se deram essas outras colaborações no decorrer do projeto?

CC: A Bruta Flor Filmes (Cacá Bernardes e Bruna Lessa) foi convidada a integrar a performance de 2017 quando nos demos conta, através do processo, da potência conceitual que o trabalho teria na forma de imagens fixadas, ressaltando a ideia da permanência fantasmática de performances obsoletas na contemporaneidade. Pontogor é parceiro de longa data do Cartográfico. Sua não preocupação com fronteiras de linguagem nos leva a procurá-lo sempre que possível.
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