Sara Ramo

Madri/Espanha, 1975

  • Invasão ou tudo que ficou contido (2005)
  • Esboço para boneco de neve (2005)
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Sara Ramo

Artista plástica espano-brasileira. Iniciou sua carreira na Universidad Complutense de Madri, continuando seus estudos na Escola de Belas Artes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Recebeu várias bolsas de estudo e prêmios, tais como o Prêmio Marco Antônio Vilaça para as Artes Plásticas (Recife) e HBOX, Fundação Hermés (Paris). Dentre as exposições individuais das quais participou, destacam-se Translado, PhotoEspaña e Real Jardín Botánico, todas em Madri; e Movable Plans e The Photographer’s Gallery, ambas em Londres. Tem participado de exposições coletivas, tais como 29ª Bienal de São Paulo, 53ª Bienal de Veneza e (Extra) Ordinary, na York Quay Gallery, Toronto, Canadá.

Pensar é esculpir

Paula Alzugaray

A linha de demarcação no centro do quadro indica uma dimensão ambivalente de mundo. Entre a chuva e o boneco de neve é o palco de dois acontecimentos em campos espelhados, que não se deixam abalar um pelo outro. Uma dupla ação se inicia. No campo esquerdo, uma bola desenha uma órbita incorruptível: é projetada sobre a parede, bate no chão e sai de quadro, para então voltar a ser projetada sobre a parede, pingar no chão e sair fora de quadro. Simultaneamente, à direita da tela, chovem bolas de papel amassado em intensidade crescente. Ao tocar o chão, as bolas rolam e congelam como pedras. 

Há um sistema sugerido, que rege e organiza as ações em campo. Mas, como todo sistema, este também tem falhas. É justamente através da brecha que Sara Ramo entra no campo de sua criação para interferir no próprio sistema, procurando alterá-Io, removendo pacientemente as pedras que se acumulam no chão para tentar garantir a formação de um boneco de neve. Presente fisicamente no vídeo, a artista se situa na iminência dos dois estados propostos: o chover (desmanchar) e o manter-se de pé (ser construtivo). Sara se esforça, mas sua vontade modificadora, porém, não parece vingar. A chuva permanece, as pedras rolam e a artista sai de cena. O jogo vira e as pedras evaporam no ar. 

O vídeo se comporta como fábula. Sem regras evidentes, tem funcionamento similar à de uma breve narrativa alegórica. Entre a chuva e o boneco de neve pode ser lido como um campo de batalha, onde contracenam e disputam entre si as qualidades humanas da vontade e do vício. Entre essas duas personagens, Sara Ramo parece ficar com a última. Seus trabalhos costumam recair sobre as órbitas, hipérboles, voltas e revoltas. Um tipo de movimentação não exatamente monótona, mas viciada. Mas o partido do vício é assumido apenas para poder corrompê-Io. Ao alterar ligeiramente seu eixo e sua circularidade, a artista modifica profundamente a realidade. 

Narrativa fantástica, elaborada para explicar situações da vida prática, a fábula borra a linha demarcatória entre ficção e realidade. E, como o vídeo é fabulação, sua operação é aproximar arte e vida. A briga da artista contra a natureza inexorável da chuva e do tempo é uma alegoria do seu fazer artístico cotidiano: do trabalho do dia-a-dia. Essa dimensão "real" das fabulações de Sara Ramo aparece na fotografia Invasão ou tudo que ficou contido, onde o ateliê da artista é ocupado por bolas de papel em estado de suspensão. "Projetos e ideias por fazer, pensamentos que se materializam", define ela. 

Chover, empedrar, em bolar, evaporar, chover, empedrar, embolar, evaporar. O ciclo parece reafirmar o que Joseph Beuys previa para a arte: pensar é esculpir.
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