Albano Afonso

São Paulo/Brasil, 1964

  • Detalhe da Série: Auto-retrato com Desportes (2004)
  • Da Série: Auto-Retrato com luz (2002)
  • Da Série: Auto-Retrato com luz (2002)
  • Detalhe de Planos de Viagem (s/d)
  • Detalhe da Série: Auto-retrato com Dürer (2001)
  • Da Série: Pinturas de luz (2004)
  • Da Série: Pinturas de Luz (2004)
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Albano Afonso

Albano Afonso é formado pela Faculdade de Arte Alcântara Machado (FAAM) na cidade de Santos (SP). Recentemente participou da coletiva 7SP - Sete Artistas de São Paulo, no CAB Art Center, em Bruxelas (Bélgica, 2012), da individual A Natureza, intervenção na fachada Hospital Edmundo Vasconcelos (SP, 2011), entre outras. Possui obras na coleção do CAB Art Center, em Bruxelas (Bélgica), no Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto (SP), entre outras instituições.

Fernando Oliva

O corpo do espectador é invadido pelas árvores, ilumina-se e, ao mesmo tempo em que subtrai luz, joga sombras sobre a imagem do bosque de pinheiros que brilha ao fundo da sala escura. O visitante está, a um só tempo, bloqueando parcialmente a visão da obra, integrando-se a ela e tornando-a visível para um segundo observador. Na instalação criada por Albano Afonso para esta Temporada de Projetos, bastam presença e deslocamento para desestruturar toda a cena. 

Semelhante operação desestabilizadora, só que situada no universo bidimensional e valendo-se dos recursos próprios da pintura, pode ser percebida em Magritte. Le Blanc-Seing (Assinatura em Branco), de 1965, é obra que Albano assume como uma de suas principais referências para discutir representação, ilusão e verossimilhança. Na tela do pintor belga, vemos uma mulher cavalgando em uma floresta, seu corpo e o da montaria simultaneamente atravessando e sendo atravessados verticalmente pelas árvores (experiência análoga a que se submete o público no Paço das Artes). Toda a ambiguidade está baseada em uma particular subversão das regras da perspectiva, de maneira que fica impossível determinar a distância entre a figura central e a grade formada pelo bosque, em incessante movimento entre os planos anterior e posterior do quadro, aprisionando e libertando a cavaleira, aproximando-se e se afastando do espectador. Esta indiferenciada trama de pinheiros se coloca à frente não só para camuflar, mas também para iluminar os corpos. Assim como na instalação de Albano, o real depende de uma presença física para se revelar. 

Tanto a obra de Magritte quanto a de Albano parecem perguntar sobre uma certa natureza dos homens, das coisas e da arte: no sistema da representação, o que veio ao mundo para suprimir e o que possui a capacidade de tornar visível? Vale aqui estabelecer um paralelo com as pesquisas de Yves Klein, centradas nos embates presença-ausência, material-imaterial, especialmente as “zonas de sensibilidade pictórica imaterial” na célebre mostra realizada em 1958, "O Vazio" (uma galeria pintada de branco, inteiramente vazia, que ele chamou uma "exposição de vacuidade"). 

A operação de mão-dupla que envolve subtração e adição de elementos - e que insere decididamente o espectador neste jogo, em que eliminar e acrescentar não são decisões excludentes - é ponto central em outras séries criadas por Albano, caso das imagens de paisagens perfuradas sobre espelhos (série Planos de Viagem) e de seus auto-retratos sobrepostos a auto-retratos de Dürer, Van Dyck, Rembrandt, Goya e Courbet, intersecção que cria um campo indeterminado no qual as identidades de Albano dialogam com as do pintor consagrado. 

Na técnica desenvolvida pelo artista, o reconhecimento de seu biótipo por parte do público fica comprometido devido a essa fusão (feita digitalmente, com base em um prisma, a partir dos olhos de ambos personagens). Este procedimento que busca articular negação da identidade pessoal e reafirmação da identidade artística (uma vez que as características físicas originais de Albano são mascaradas e restam a força e a sedução da obra por ele criada) já foi levado a cabo nas fotografias em que ele elimina seu próprio rosto com o disparo do flash (luz que a um só tempo revela e destrói a imagem), de novo urna evidente referência a Magritte, no caso a tela O Princípio do Prazer 

Um destes retratos perfurados - uma mistura entre o auto-retrato do pintor francês Alexandre-François Desportes (1661-1743) e o de Albano - recebe o público à entrada da exposição no Paço. Originalmente, o quadro de Desportes (Auto-Retrato de um Caçador, 1699) mostra o artista posando vitorioso, com um rifle à mão, após um bem sucedido dia de trabalho, animais mortos aos seus pés.

O tema clássico da caça (que pressupõe a morte) também se manifesta na projeção monumental no interior do espaço, baseada na floresta criada por Botticelli em História de Nastagio degli Onesti (Segundo Episódio), de 1483, pintura que narra o castigo eterno sofrido por um cavaleiro e sua amada - ela por ter se mostrado irredutível ao negar continuamente suas propostas de casamento, e ele por ter se suicidado por ela. Os deuses o condenam a caçá-Ia e entregar parte de seu corpo aos cães - para no dia seguinte recomeçar, indefinidamente. A ação é presenciada por um mortal, o cavaleiro Nastagio degli Onesti, que vagava miseravelmente por um bosque de pinheiros, amargando ele também o drama de sucessivas recusas por parte da mulher que amava. Contudo, ele consegue reverter a situação, ao relatar a ela a história. A dama, temendo destino semelhante, aceita o pedido de casamento. 

Esta fábula de amor foi representada por Botticelli em quatro grandes painéis horizontais. Albano Afonso, em mais um de seus mergulhos na história da arte (a nostalgia e o resgate de uma era perdida são temas que dariam margem a toda uma outra discussão centrada em sua obra), apropria-se do bosque de pinheiros presente no segundo destes painéis, criando a partir dele uma superfície dura perfurada - em papel fotográfico, um suporte por excelência - que, atravessada pela luz branca do projetor, reproduz a floresta na parede da sala. Em chave contemporânea, o artista dá continuidade e atualiza o embate entre realidade e ficção -material/imaterial, concreto/ilusório - presente nas telas do pintor florentino.
 
Na projeção desenvolvida por Albano para o Paço das Artes, a mata se abre numa clareira e, onde originalmente se via o cavaleiro arrancando o coração e as entranhas da amada, impõe-se agora a luminosa presença do casal Adão e Eva, de mãos dadas, seus corpos unidos por centenas de fios elétricos (técnica já usada na série Pictogramas Iluminados), tematizando a história trágica original de separação e morte, simbolizada pela perda da eternidade, o atributo divino do casal no Paraíso. 

É interessante observar que, na contramão da corrida tecnológica que marca parte da produção artística atual, Albano criou seu casal bíblico de forma bastante precária, podemos dizer low-tech. Trata-se de lâmpadas baratas, de baixa voltagem, dessas que vemos por aí durante o Natal, mas que aqui funcionam para definir os contornos e emprestar carnalidade (e humanidade) às figuras de Adão e Eva. 

Tudo isso em detrimento das inúmeras ferramentas disponíveis para se atingir um resultado semelhante ou, até, mais eficiente - em mais uma decisão que reafirma a instabilidade desta obra, do mundo, do homem e das relações afetivas. Além da interdependência entre duas pessoas, a característica debilidade das ligações amorosas é reiterada pela construção do trabalho - por exemplo, pelo fato de o circuito de cada uma das centenas de lâmpadas funcionar em par: se uma delas queima em Adão, o mesmo acontece em Eva, simétrica e simultaneamente. Neste universo criado por Albano Afonso - sistema em que os símbolos da religiosidade não podem ser negados - a saturação de luz é responsável pelo sentido impalpável da cena, em conformidade com o brilho irreal e etéreo da floresta. 

Habitando ambiente tão improvável quanto o encontro de duas pessoas, o visitante se desloca lentamente, de maneira cuidadosa, espécie de cavaleiro perdido em um bosque, receoso ou do que pode encontrar, ou de destruir coisa por demais preciosa. Parece vagar à deriva, como se à procura de algo valioso que definitivamente perdera.

* Albano Afonso foi artista convidado para a Temporada de Projetos 2004
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