Lia Chaia

São Paulo/ Brasil, 1978

  • Fauna (2006)
  • Fauna (2006)
  • Fauna (2006)
Small_arrow_left Small_arrow_right

Lia Chaia

Formada em Artes Plásticas pela FAAP-SP em 2001. Fez cursos no Sesc e com os artistas Timm Ulrichs e Jordan Crandall. Fez ilustrações para a revista Azougue e performances no projeto "Genius loci - o espírito do lugar", organizado por Lorenzo Mammi e Marco Morais (2002). Realizou as exposições individuais: “A sala de Lia” (Ateliê aberto, Campinas-SP, 2003) e “Experiências com o corpo” (Instituto Tomie Ohtake, São Paulo-SP, 2002). Em 2004 participou da mostra coletiva “31 artistas, 1 metrópole” (Caderno especial, Folha de S. Paulo) e, em 2003, integrou as mostras: “Young Brazilian artists” (Galeria André Viana, Porto-Portugal), “Imagética” (Fundação Cultural de Curitiba-PR), “Metacorpos” (performance do Corpo de Baile, Paço das Artes, São Paulo-SP), “1 Lúcia 2 Lúcias” (Galeria Vermelho, São Paulo-SP), “Sábado de performances” (Galeria Vermelho, São Paulo-SP), “Um incômodo - nu-sol” (PUC-SP), “Ordenação e vertigem” (Centro cultural Banco do Brasil, São Paulo-SP) e “Corpo de Baile” (Galeria Vermelho, São Paulo-SP). Em 2003 recebeu a bolsa Programa de Residência, na Cité des Arts (Paris-França).

Nos jardins de Lia Chaia

Fernando Oliva

Duas práticas incomuns ao universo da arte contemporânea, e em tudo estranhas à cultura brasileira tradicional, são convocadas por Lia Chaia para esta exposição no Paço das Artes: o tangram e a topiaria. Esta, na base dos jardins franceses e japoneses, é a arte de interferir na configuração das plantas e transformá-Ias em esculturas por meio de um processo de poda; aquela, surgida na China antiga, se baseia na combinação de sete peças geométricas, o que possibilita a criação de milhares de figuras distintas. 

Em comum, ambas trabalham com a criação de imagens e objetos - possibilidades para o figurativo, o abstrato e o nebuloso campo de momentânea indefinição entre eles. Fauna se situa na confluência entre estas técnicas e no embate com questões muito próprias da trajetória da artista, particularmente o confronto entre natureza e cultura, que em suas instalações, vídeos e fotografias se manifesta não apenas por meio das fricções entre o indivíduo e a cidade, mas também pelo íntimo questionamento do mundo natural e dos desejos que nele projetamos.

Ao dar os primeiros passos no interior de Fauna, o visitante se descobre imerso em uma floresta constituída de elementos essenciais: vegetação, animais e sons de animais. Reconhecemos visualmente urso, pato, galo, urubu, canguru, peixe e coelho, entre outras espécies, e ouvimos sons que supostamente pertencem ao reino dos bichos, mas que na verdade são ruídos produzidos por um ator - alguns baseados em imitações de sons da natureza, outros simplesmente inventados -, em mais uma operação que se vale do natural para colocar em xeque noções de representação e verossimilhança. Neste caso, no campo da articulação entre o visual e o sonoro.

Adotado como elemento estruturador da paisagem, o uso que Lia dá ao tangram é genial. São as soluções matemáticas apresentadas por ela em forma de animais que nos permitem enxergar o mundo natural numa espécie de fusão carnal, conflituosa e inexplicável, entre a racionalidade da geometria e a coisa vegetal, intensa, orgânica e sensorial da selva. As esculturas de Fauna remetem aos Metaesquemas de Hélio Oiticica, aos Bichos de Lygia Clarke também aos jardins modernos de Burle Marx - nestes três casos, tanto por seu aspecto formal quanto pelas possibilidades libertárias que se oferecem a cores e formas. 

Dialogam também com a pintura Le Blanc-Seing (Assinatura em Branco), de Magritte; com a instalação Tropicale Modernité, de Dominique Gonzalez Foerster; com a videoinstalação Que É De?, da dupla Leandro Lima e Gisela Motta; e com as projeções Pinturas de Luz, de Albano Afonso, entre tantas aproximações férteis e possíveis.

As sete peças (os tans) são cinco triângulos de diversos tamanhos, um quadrado e um paralelogramo. Em cada formação, todas devem ser usadas e não é permitido sobrepor. A escolha de Lia não é aleatória, claro, e vem carregada de sentidos. O mais evidente está no paralelo possível com a arte e seu sistema. Trata-se de um jogo com regras claras e invioláveis - no limite, possuidor de uma linguagem própria. 

Contudo, uma vez dominada sua gramática (formal, estrutural e combinatória), infinitas possibilidades se apresentam, e ali podemos nos movimentar à espera de uma experiência que será única. Na arte como no jogo, é imprescindível a participação e é necessário, ainda, que o outro domine os mesmos códigos, a fim de ter consciência das particularidades e dificuldades deste universo situado entre a ficção e a realidade. 
  • Realização: