• A fonte (Praia do Flamengo) (2002)
    Projeção contínua de 1 slide
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Frederico Dalton

Frederico Dalton vê a praia carioca como um retrato da cultura brasileira, sendo base para seu trabalho. Por meio de recursos precários como sobreposições de imagens do mesmo lugar, ampliações gradativas ou vibrações nas projeções de slides, o artista sugere instabilidade e fragilidade às imagens. Dalton estudou vídeo com Nam June Paik e fotografia com Nan Hoover, entre 1989 e 1992, na Academia de Arte de Düsseldorf. Em 2007, participou das exposições Oi futuro, no Rio de Janeiro, e Vento sul – 4ª mostra latino-americana de artes visuais, em Curitiba.

Daniela Maura Ribeiro

Rio de Janeiro.
Alguém observa ... E quem observa?
Frederico Dalton.

Ao percorrer a praia do Flamengo, o artista fotografa os banhistas, acrobatas de areia e vendedores. E seu olhar capta não somente o modus vivendi daqueles que são fotografados – representantes das minorias sociais - quando registra tais imagens cotidianas...

Um banhista se lava em uma bica e o outro, ao seu lado, observa. Logo atrás, um rapaz dá um salto mortal enquanto numa carrocinha vende-se algo. O foco está nos banhistas da bica cujo verso é um muro negro. Um vácuo colocado pelo artista? Uma brecha-convite à contemplação?

Banhar-se na bica é um hábito comum aos frequentadores da praia do Flamengo, que talvez não tenham fonte melhor para limpar o corpo. Seria então a bica, fonte de um recurso? Ou de esperança? De purificação, desejo, vida ou alimento? Esse questionamento ao redor da ideia de fonte – simbolizada pela bica – é o cerne da instalação com projeção A Fonte. O slide é projetado no fundo da sala e um friso na parede emoldura a imagem. Como não há noite/cessa toda fonte;/como não há fonte/cessa toda fuga (1). Estaríamos diante de qual fonte?

Segundo Alfredo Bosi, o ato de olhar significa um dirigir a mente para um “ato de in-tencionalidade”. E como adivinhar a intenção do artista? Quando Frederico Dalton fotografa, separadamente, dois banhistas com características distintas e os apresenta frente a frente nas paredes da sala expositiva, o que de fato nos é dado a ver?

nada é miragem
na tela rútila das pálpebras (2)

A projeção de slides giratória O Olhar sugere um enfrentamento entre os dois banhistas. As imagens circulam pela parede mantendo sempre seu eixo frontal, como se o olhar dos oponentes fosse o convite ao desafio. E à medida que circulam, sofrem distorções que ocasionam que a forma e o tamanho das imagens sejam sempre diferentes. No eixo do olhar daqueles que ora se enfrentam - e que outrora miravam a câmera - está o espectador. A conjugação oponente-espectador-oponente cria um espaço de simulação onde o espectador representa o mediador de uma luta entre desiguais: com a variação da imagem perde-se o referencial quanto ao real porte do oponente. O que legitima a existência dessa luta?

Poesia é voar fora da asa (3).

Notas:

(1) MELO NETO, João Cabral de. Psicologia da composição In MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

(2) BAPTISTA, Josely Vianna. Os póros flóridos. In ASCHER, Nelson, BONVICINO, Régis, PALMER, Michael. Nothing the sun could not explain: 20 contemporary Brazilian poets. Los Angeles: Sun & Moon Classics, 1997.

(3) BARROS, Manoel de. Uma didática da invenção In MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

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