• Análise do conteúdo estomacal de Fábio Carvalho  (1996)
    vídeo-projeção, 25'
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Fábio Carvalho

Fábio Carvalho transita por diversas mídias (foto, vídeo e informática). De sua inusitada formação em biologia, trouxe questões sobre o mistério da origem, o destino da vida e a morte. O vídeo Análise do conteúdo estomacal de Fábio Carvalho registra todos os alimentos consumidos pelo artista num período de 15 dias. Suas obras funcionam como um diário de imagens que a câmera capta de suas atividades corriqueiras. Em 2006, participou da exposição Água corrente, no Centro Cultural São Paulo, e, em 2008, de Corpoinstalação, no Sesc Pompeia, em São Paulo. 

Carla Zaccagnini

Suponhamos um mundo, ou um pedaço de mundo, que fosse só terra e água, em que víssemos os lagos inertes, os rios que correm seguidos por mais de si mesmos e o mar, que vem e volta e volta a vir. E às plantas e aos bichos só os conhecêssemos dentro de latas ou pacotes herméticos. Ainda assim, saberíamos que o tempo passa olhando as horas nos relógios - sempre que os intervalos entre uma observação e a próxima durassem mais que um segundo e menos que vinte e quatro horas (ou doze, para quem usa certo tipo de relógio digital). 

Digamos que, ainda nessa terra, fosse uma noite eterna - ou perpétua - e sem astros. E que só se conhecesse o mecanismo do relógio digital (desse certo tipo). De tanto olhar acenderem-se e apagarem-se os segundos, o pulsar dos números adequaria o batimento cardíaco, e terminaria por retardar a fome, o tédio e o envelhecimento (e talvez adotássemos o sistema duodecimal). E se cada um de nós elegesse uma combinação de números, como costuma ocorrer-nos por algum tipo de condicionamento supersticioso (e eu dormisse às 3:33 e acordasse às 3:33, e, de qualquer lugar e sempre, só olhasse os números luminosos quando fossem 3:33), os momentos seriam o mesmo e o tempo, condenado, deixaria de passar. 

Se, por outra parte ou em outra parte, todos os relógios fossem de pulso e de corda, e só tivessem um único preciso ponteiro num mostrador repleto de demarcações. E se todo mostrador girasse (à velocidade do ponteiro e no sentido horário), teríamos sempre a mesma hora, cada um de nós. Talvez a hora que tinha o relojoeiro de quem cada padrinho comprou cada primeiro instrumento. Talvez a hora do padrinho. As horas seriam hereditárias, de uma herança com escolha: como os nomes. E conviveriam nessa parte desse mundo, tantos tempos quantos nomes. E aos homônimos somar-se-iam os homócronos, que compartilhariam o mesmo meio dia/meia noite (ou as mesmas três e meia) para sempre. 

Se, num momento que até então seria (ou talvez fosse) o mesmo, deixássemos ou deixasse alguém de dar corda ao relógio. E se todos os relógios terminassem por deter seu movimento sem destino e seu tique-taque onipresente. E pudesse a pulsação ser a do sangue e a identidade a do nome. E o tempo ser o do corpo, da fome, do sono, do tédio. Herdar-se-iam os hábitos. Os filhos ou afilhados de quem almoça e janta teriam fome para esses momentos, os de quem jejua às sextas só sentiriam sede de ?água, de tempos em tempos. E somente aqueles que compartilhassem hábitos poderiam referir-se à mesma medida de tempo, e ver-se entre-as-comidas ou marcar um encontro para o próximo período-a-água. 

E os hábitos - fadados como estão à permanência - repetir-se-iam quase inalterados, seguidos por mais de si mesmos, com as suaves variações que comportam. Hoje uma fatia de pão, amanhã duas, depois de amanhã torradas (que o pão já é velho); hoje café puro, amanhã também, depois de amanhã com pouco leite (em pó, que o pó dura muito). A repetição certeira dos hábitos acabaria por engrenar a validade das coisas e a neces?sidade humana. E teríamos sempre tanto leite quanto fôssemos querer tomar antes de que se pusesse a esverdear e umedecer. E o tempo, domado, deixaria de passar; porque de nada nos serve que seja amanhã se o dia for igual a hoje ou a ontem ou ao 4 de abril de 1995. 
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