Anaisa Franco

Uberlândia /Minas Gerais, 1981

  • Anaisa Franco - "Confusion", escultura interativa, 2014
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Anaisa Franco

Anaisa Franco é artista, mestre em Arte Digital e Tecnologia pela Universidade de Plymouth na Inglaterra (financiada pela Bolsa Alban) e Bacharel em Artes Plásticas pela FAAP. Desde 2005, tem desenvolvido trabalhos em Medialabs, residências e comissões em diversas instituições internacionais. Tem exibido internacionalmente em exposições como 5th Seoul International Media ArtBienalle em Seoul na Korea, ARCOmadrid, Vision Play no Medialab PRADO, Sonarmática no CCCB em Barcelona, Espanha, Tekhné no MAB e Mostra LABMIS em São Paulo, Live Ammo em Taipei, SLOW no Plymouth Art Centre na Inglaterra, entre outras.

Entrevista com Anaisa Franco

Ananda Carvalho

A.N.: Os seus três trabalhos expostos na Temporada de Projetos – Confusion, On Shame e Externalizing Data – fazem parte de uma série chamada Psicossomáticos (que ao todo englobo sete obras). Sabe-se que a psicossomática é um termo da medicina que compreende efeitos sociais e psicológicos sobre processos orgânicos do corpo. Como os trabalhos ativam, ou melhor, ampliam a discussão sobre esta temática?

A.F.: Os três trabalhos expostos foram criados através de prêmios de produção de projetos em laboratórios na Austrália, Espanha e Alemanha. O processo de produção de Confusion foi muito complexo: englobou 3D scan da minha própria cabeça, e de uma bola de plasma, modeladas e subtraídas, o resultado foi cortado a laser em fatias. Na interatividade, a bola de plasma foi transformada em um sensor que, ao ser tocado por uma pessoa, ativa diálogos usando Arduino mp3 shield e autofalantes. On Shame foi feito em colaboração com o músico e programador Scott Simon. A interatividade engloba um dome transparente que captura o rosto do público com uma câmera e o distorce mudando cores e ao mesmo tempo expressando diálogos e sons de vozes inconscientes.

A peça Externalizing Data foi feita em colaboração com a banda Chickson Speed. A peça utiliza uma estrutura de madeira cortada a laser em forma de uma cabeça abstrata. Quando o usuário se aproxima da peça, ela gira e emana luzes coloridas e música.

A.C.: De certa forma, as três obras desta exposição constituem-se figurativamente como cabeças, o que poderia indicar uma perspectiva de seleção que enfoca o pensamento. Entretanto, nessas produções, o pensar é ativado pelos sentidos, tanto do público como das máquinas. Inclusive, você compara sentidos e sensores...

A.F.: A inspiração vem do desejo de criar interfaces que interligam o físico com o digital. Utilizo conceitos da psicologia e das ciências cognitivas. Meu trabalho engloba uma pesquisa prática, que implica um constante processo de experimentação com novos materiais e fabricação digital, para chegar em uma “situação afetiva”. Nos Psicossomáticos, eu tive a intenção de elaborar artisticamente uma relação sensível entre os sentidos humanos e criações tecnológicas sensoriais. Dentro desta investigação, estou questionando a possibilidade de inserir comportamentos, sentimentos e emoções dentro de máquinas esculturais expandidas, fazendo-as reativar tais emoções que se tornam visíveis ao público através do contato humano (presença, toque, olhar).

A.C.: Nas fichas técnicas dos seus trabalhos, eles são classificados com diferentes termos: esculturas emocionais, eletrônicas, luminosas, interativas, reativas ou sensíveis. Por esse viés, como pensar as diferentes relações entre o eu e o outro ativada por suas obras: público X artista; máquina X pessoa; representação X escultura?

A.F.: O objetivo é criar uma relação sensível entre máquina e humano, orgânico e artificial, proporcionando ao usuário reviver emoções, expandir sentidos e “sexto-sentidos” provocados pelas obras. Assim, o espectador pode amplificar suas sensações no corpo, por meio de uma experiência com interfaces que simulam estes sentimentos, “elevando” o momento da fruição. Nestas dinâmicas de interação, minha pesquisa baseia-se em perspectivas práticas e teóricas de estimulação e simulação perceptual.

A.C.: Você constrói uma proposição dialógica entre a eletricidade (como materialização do pensamento) e a matéria (como simbologia do corpo). Ou seja, poderíamos dizer que o seu processo de criação envolve tanto a construção de metáforas com a reconstrução de elementos figurativos?

A.F.: Como eu tenho uma formação de escultura e eu tenho uma mãe psicanalista, eu sempre fui interessada na questão de por que as coisas não podem ter uma psicologia própria; porque somente as pessoas podem pensar e não esculturas, e por que tudo não pode ter vida. Meu trabalho como artista envolve o produzir pensamentos, emoções e comportamentos para as esculturas, tirando elas da inércia. A eletricidade gera a vida, já que só nos movemos porque somos elétricos. No mundo digital, eu estou interessado na eletricidade e no que ela faz com as peças, removendo a inércia do material, criando um material com vida.
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