• Alex Oliveira, “S/Título”, Série Fora do Lugar, 2014, fotografia, impressão fine art e moldura, 60 x 80 cm
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Alex Oliveira

Alex Oliveira é fotógrafo, natural de Jequié (BA), graduado em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia. Desenvolve investigações artísticas em torno do uso da fotografia aliada a performance e a intervenção urbana. Na Bahia, integrou exposições na Aliança Francesa, seis edições dos Salões de Artes Visuais, XI Bienal do Recôncavo, 3ª Bienal da Bahia. Em Belém (PA), participou do Diário Contemporâneo de Fotografia. A convite da Galeria Vasli Souza, em Malmö, Suécia, realizou uma exposição individual com imagens produzidas no Brasil e durante a residência artística na Europa.

ENTREVISTA COM ALEX OLIVEIRA

Vinicius Spricigo

V.S.: Fale um pouco da sua trajetória artística e do significado do trabalho apresentado no Paço das Artes no desenvolvimento da sua poética. Há uma continuidade de experimentos formais e/ou temáticas anteriores? Quais seriam os elementos principais dessa investigação artística?

A.O.: No trabalho Fora do Lugar, é possível notar uma continuidade dos experimentos formais e/ou temáticos no qual venho desenvolvendo na minha poética artística, que se propõe investigar o uso da fotografia aliada à arte contemporânea, performance, arte relacional, redes sociais e intervenção urbana.

Fora do Lugar surgiu a partir de investigações artísticas em torno das possibilidades de imbricamento entre fotografia e performance, pesquisa que passei a desenvolver e experimentar, em colaboração com outros artistas, a partir de um exercício cotidiano de criar ficções fotográficas a partir de elementos do real, utilizando-se do precário, acaso e cotidiano como potência criativa.

De 2011 a 2015, utilizei a plataforma da rede social Facebook como um espaço expositivo de imagens artístico-fotográficas, expondo no espaço virtual, imagens construídas a partir das relações estabelecidas entre os distintos ambientes por onde passei, convocando as pessoas que encontrava – desde amigos próximos a desconhecidos – para participar das ações e experimentações artísticas, que foram sendo construídas a partir do acaso e do cotidiano, como também a partir de derivas e “errâncias” feitas por diferentes espaços e lugares.

Desta forma, Fora do Lugar surgiu a partir destas investigações artísticas, em fotografia e performance. A túnica e a “taeia” árabe foram trazidas de Berlim, depois de um mês vivendo naquela cidade e sendo, constantemente, confundido com um árabe, período em que reforcei, ainda mais, alguns traços fenótipos de semelhança, vivenciando e produzindo, a partir de andanças e derivas, diversas narrativas, diálogos e atravessamentos.

V.S.: Muito embora você se aproprie da vestimenta árabe tradicional e “traços fenótipos” que remetem a uma suposta ascendência árabe, as imagens não nos remetem necessariamente aos costumes e tradições árabes ou mesmo a um relato seu sobre essa cultura. Elas são de certa forma ‘silenciosas’. Parece não haver elementos familiares; existe algo inquietante, como um estranhamento ligado ao estado posterior de abandono de um “lugar da infância” revisitado anos mais tarde. Existe alguma relação para você entre um deslocamento espacial, esse estar fora de lugar, e a forma como nos recordamos do nosso passado, como por exemplo, as histórias vividas na nossa infância? Como você constrói suas imagens nesse limiar entre espaço e memória?

A.O.: Fora do Lugar traz realmente um silêncio presente nas imagens, como você mesmo disse. A narrativa não é construída de forma linear e, muitas das vezes, as imagens não se complementam. Os espaços escolhidos para a criação das imagens entremeiam espaços de memória afetiva, como também paisagens e ambientes privados que foram encontrados a partir de viagens e derivas pela Bahia.

Estes espaços silenciosos da narrativa se revelaram necessário durante a construção desta ficção fotográfica, pois não tenho compromisso com o real. A ficção surgiu de uma proposição de experimentar a fotografia como uma forma de gerar movimentos, partindo de uma semelhança e propondo criar ficções, revisitando espaços e paisagens, invertendo e embaralhando lugares e memórias.

No local onde apareço sobrepondo a foto de uma mulher em frente ao meu rosto – que neste caso é a minha avó materna Corina, num retrato 3 x 4 ampliado – é um reservatório de água abandonado, localizado em cima de uma montanha, no fundo da antiga casa que morei por muitos anos na minha cidade natal, Jequié. Este espaço é um lugar afetivo, uma ruína que já existia desde a minha infância.

Sendo assim, este trabalho propõe questões ligadas à identidade, memória, invenção, ficção. Busco criar paralelos com a sensação de desterritorialização, ou seja, com um sentimento de estar, permanentemente, Fora do Lugar e/ou não pertencer mais a lugar nenhum. Por isso, considero que o silêncio faz parte da própria narrativa, e que não necessariamente busco dar respostas, e sim, levantar questões, ou deixá-las em aberto. Como sugerir mais do que contar? Como os lugares podem ser outros? Como a fotografia pode ser ficção e forjar realidades? Como entrecruzar elementos da minha experiência, da minha história, para construir ficções?
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