Mise-en-scène
Uma das maneiras de lidar com a tensão latente que é parte indissociável da obra de Regina Parra reside no debate histórico entre o “natural” e o “posado” no gênero do retrato – dilema que remonta ao século 18 (Chardin), atravessa a fotografia moderna no início do século 20 (desde Walker Evans) e chega até a produção contemporânea, seja a pintura figurativa (Gerhard Richter e sua série Baader-Meinhof, Lucian Freud, Luc Tuymans etc. etc.) ou o vídeo (os rostos em still de ...

Regina Parra


Rakugaki
Para a Temporada de Projetos do Paço das Artes 2009, o artista paulistano Claudio Matsuno propõe em “Rakugaki” (palavra em japonês para rascunho, rabisco) uma experiência a partir de sua vivência e pesquisa referentes ao desenho. Sua atenção está na técnica, mas, sobretudo, no modo como o observador se relaciona com essa mesma técnica a partir das imagens feitas à mão sobre uma superfície. Se a pintura teve todo o século XX para reeducar a percepção das imagens sobre tela - a...

Claudio Matsuno


Horizonte discreto
Dentro de uma caixa móvel, construída em madeira clara e acrílico transparente dobrado, acondicionada num estojo de descanso de espuma recortada, está a máquina de desenhar de Luciana Ohira e Sergio Bonilha. A maleta transportável - que confere o status de “hardware” a seu mais recente projeto artístico - marca presença também nesta exposição como uma seta simbólica dos artistas-viajantes para suas participações em exposições coletivas e individuais no Brasil e exterior....

Luciana Ohira e Sergio Bonilha


A quarta cor
“Espera até se afastar um pouco do lado errado, e volta espera. Torna a respirar como humano, duplica a vontade de dormir, espera (...) Agora escuta:”Em carta ao amigo distante, Cristiano Lenhardt conduz histórias de uma vontade antiga. Quer chegar ao lugar preciso do sonho em que a luz ganha uma quarta cor primária, não por justaposição nem por adição, mas pelo pacto que fazem seu olhar sublime e os vazios fracionados que intercalam vermelhos, azuis e verdes. O hiato entre corpos re...

Cristiano Lenhardt


Plano de reconversão de logradouros culturais - Pineapple Luxury Complex
Concebido pelo poder instituído, com data de fundação prévia, nos termos que especifica, no uso das atribuições que lhe são conferidas por palavra, e entrando em vigor na data de sua publicação e até a presente data, em caráter inapelável, torne-se público:Plano Geral de Metas e BenefíciosPlano de Reconversão de Logradouros Culturais (PRELOC)O desenvolvimento urbano sem um planejamento prévio traz, ao longo do tempo, consequ¨.ncias desastrosas para a qualidade de vida das g...

Grupo Hospede


re.van.che
O primeiro round teve o primor de fazer sair do forno as reproduções incrivelmente fiéis que formam esta obra exibida por ora: luvas de boxe, capacete de treino, banquinho de corner, saco de pancada para socos e outros símbolos do universo dos boxeurs. Como ocorre na luta onde só cabe a vitória ou a derrota, cada fornada é uma verdadeira surpresa. O calor de 1100ºC do segundo round foi decisivo para se retirar intactas dos encaixes dos moldes incandescentes as peças em escala real (mold...

Laerte Ramos


Minha língua é a pena de um ágil escriba
Mesmo que venha provocando um interesse crescente no grande público, a arte contemporânea ainda é alvo de ironias pelos que dizem “não conseguir entendê-la”. Se raramente a pergunta sobre o significado de uma música é feita ao músico, no campo das artes visuais ela ainda é recorrente. Isso se deve também ao fato de que o olhar parece não dar mais conta de muitos trabalhos de arte. Uma vez que é possível fazer arte com tudo, inclusive com o que não é visual ou palpável, surge ...

Maurício Ianês


VITRAL
Na direção contrária à da pressa a que somos submetidos diariamente, caso nos deixemos dragar pelo ritmo exterior ofertado pelo mundo de hoje, Michel Groisman cultiva lentamente cada um de seus trabalhos, fazendo do tempo um aliado. A exposição “Vitrais do Coração”, apresentada no Paço das Artes, é mais um exemplo desse vínculo. Desde 2005 o artista vem experimentando possibilidades deflagradas por um único gesto: o de encostar os dedos de uma mão na outra e a partir daí constr...

Michel Groisman


Prateleira
Nos sonhos mais loucos do século XIX apareciam imagens de rios onde corria limonada, fontes de onde jorrava champanhe, árvores que davam compotas e bolinhos já prontos, frangos que caíam assados diretamente do céu para os pratos de homens e mulheres aparelhados com asas de borboletas e antenas de formiga. Um mundo de abundância e fartura, em que as coisas, como em encantamento, integravam-se aos seres humanos, sem nunca deixar de sustentar um sorriso afável, uma expressão de harmônica a...

PINO


Turista azul
Quando tudo tiver encontrado uma ordem e um lugar em minha mente, começarei a não achar mais nada digno de nota, a não ver mais o que estou vendo. Porque ver quer dizer perceber diferenças, e, tão logo as diferenças se uniformizam no cotidiano previsível, o olhar passa a escorrer numa superfície lisa e sem ranhuras.Italo CalvinoA série inédita de pinturas e o vídeo que Rodrigo Bivar exibe na exposição Turista Azul foram realizados a partir da viagem que o artista fez recentemente ao...

Rodrigo Bivar


Tens que comer do pão
GWAR! Godzilla O enfrentamento do mundo 3D por Tiago Judas na Temporada de Projetos 2010 é de fazer suspender a respiração dos incautos. Seu trabalho, que nos é apresentado aqui, evidencia, sobretudo, uma memória visual privilegiadamente desorganizada, com marcações rítmicas de uma forte e viva intuição. A narrativa ficcional de O mistério líquido e a fatalidade sólida retrata a figura do artista como um personagem de si próprio. Valendo-se de recursos das história...

Tiago Judas


Portal 3P V1
(recomenda-se em tela cheia, volume alto, desprendimento e tempo disponível para associações possíveis e impossíveis)Assim Você foi um diaO que nunca seriaSe não fosse a minha fé Acredito no bonitoNo lado fantásticoPor mais que esquisitoSejaPense NissoNa minha mania de acreditarNo puro prazerNa diferença do ser/estar Trecho de “ASSIM”Letra: Rick Castro Música: Rita Figueiredo“Teu amor eu guardo aqui”. Morri, baby, que é ser-vivo de Outra forma, sem crer, a crer,...

Rick Castro


Fechaduras
Acompanho os trabalhos de Elisabete Perez, Mônica Rubinho, Raquel Garbelotti e Sidney Philocreon, há algum tempo, ainda como alunos do Curso de Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina. Observei com interesse a trajetória de cada um (coloco-me apenas como uma observadora atenta), o esforço e o empenho individualmente, e em outros momentos, nas conversas coletivas, a busca da poética visual de cada projeto. Os germes dos trabalhos já estavam ali visíveis: nas pinturas espessas de Elis...

Raquel Garbelotti


Engeoplan
No filme Nouvelle Vague, de Godard, os personagens são forçados a se locomover, agir e se relacionar afetivamente em um dos ambientes mais padronizados, impessoais e, portanto, perversos que o homem ocidental criou: o escritório de uma empresa. Investindo sobre a traumática relação entre a subjetividade e esses espaços, Rodrigo Matheus tangencia questões semelhantes - e aqui podemos lembrar de outra referência vinda do cinema moderno: O Eclipse, de Antonioni. A obra apresentada no Paço...

Rodrigo Matheus


Black Power
Em uma recente mostra em São Paulo (1), Wagner Morales apresentava uma série de trabalhos chamada Base, composta por dez imagens realizadas a partir de capas de discos de bandas de rock; o artista alterava essas imagens, buscando retirar, dessas capas, quaisquer referências ao nome das bandas, quaisquer figuras, quaisquer logotipos, restaurando, então, a imagem “de fundo” que residia ali. Depois, imprimia essas imagens de modo refinado, em papel de algodão, expondo-as emol...

Wagner Morales


Nem dia nem noite
“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa ...

Giorgio Ronna


Epitáfio para isopor
Epitáfio para Isopor pode ser entendida como uma opereta sem canções. Ou melhor, uma pantomima, por convocar uma gramática gestual de domínio comum. No projeto de Débora Bolsoni, apresentado na noite de abertura, o público acompanha a encenação por meio de um libreto. Porém não encontra ali um texto poético em consonância com a narrativa que acontece ao vivo, mas simplesmente imagens que reproduzem o comportamento dos intérpretes – ícones que buscam resumir cada um dos atos (com...

Débora Bolsoni


Rizóforos
Faz sol. Calor. A umidade do ar é alta. O céu está claro. As condições ambientais são plenas para que as raízes se desenvolvam horizontalmente, nas regiões de transição mangue-mata. Rizóforos partem dos troncos e dos ramos das árvores, formando arcos que atingem o solo alagado. Nenúfares, liquens, algas são colonizados na maré enchente. Glândulas se desenvolvem perpendicularmente à superfície. Ramificações verticais atingem o ambiente aéreo, expondo-se como lanças que se pr...

Maria Nepomuceno


Diego Belda
Poucas semanas separam a abertura da presente exposição de Diego Belda do encerramento de sua mostra individual anterior, na galeria Virgilio, em São Paulo, intitulada Malagueta, Perus e Bacanaço. Para aqueles que viram ambas, podem parecer ter sido feitas por artistas diferentes. Na galeria, o espaço quase claustrofóbico pela quantidade e disposição dos trabalhos – de natureza conceitual e formas volumétricas –; no Paço das Artes, o espaço amplo, deixado a respirar, ocupado por d...

Diego Belda


Luiz Roque
Se obras de arte fossem classificadas por gênero (comédia, ação, suspense, drama), os trabalhos de Luiz Roque talvez pudessem ser definidos como um filme de ação com uma boa dose de comédia e um romance embalado por uma atmosfera de suspense. A comparação pode parecer absurda, mas basta assistir aos vídeos em cartaz no Paço das Artes para perceber que ela não é tão descabida assim. Treinamento e PIKNIK flertam o tempo todo com o cinema: no uso da película (ambos são filmados em 1...

Luiz Roque


Tapumes
A atenção às cores e texturas do material, a construção por meio da sobreposição de camadas, a gestualidade das formas e o movimento por elas criado são aspectos que aproximam as instalações de Henrique Oliveira de suas pinturas. Embora guardem especificidades evidentes, dadas as diferentes naturezas e comportamentos dos materiais empregados, a madeira e a tinta acrílica, ambas são produzidas pelo acúmulo de matéria aplicada por meio de gestos. Daí que as lascas de compensado pres...

Henrique Oliveira


Biblioteca particular
Um impulso arqueológico move a atividade artística de Jurandy Valença. Boa parte de sua poética envolve o garimpo de documentos, que são incorporados ao trabalho. O artista coleciona imagens sintéticas, gravadas em capas duras de livros antigos, encontradas sob gastas sobrecapas de papel. Persegue esses ícones – breves e objetivos –, que contêm certa carga de sentidos e significados e resumem, em poucos traços, algumas centenas de páginas de literatura. Mas seu ato artístico não ...

Jurandy Valença


Relâche
Em 1924, o dadaísta Francis Picabia apresentou no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris, um espetáculo de balé intitulado “Relâche”, que significa “descanso”. A palavra é utilizada em teatros franceses para informar que não há performance em determinada noite, quando o teatro está “fechado para descanso”. “Relâche”, obra que ficou em cartaz durante apenas 12 noites, tornou-se famosa porque foi no intervalo entre os dois atos da peça que se apresentou pela primeira ve...

Renata Barros


Cartas/Letters
O outro lugar é um espelho em negativoItalo Calvino, As Cidades InvisíveisA experiência do estrangeiro não significa, tão-somente, deixar coisas para trás, cruzar oceanos, perder contato com a origem. Os movimentos migratórios já não obedecem a coordenadas definidas, com local de partida e destino claramente identificáveis. A destinação é improvável. Migrar implica hoje num desmantelamento das concepções de identidades culturais opostas e requer a assimilação do fragmento como ...

Nelson Crespo


#7 Ensaios sobre a crueldade
A primeira vítima da guerra é o conceito de realidadePaul VirilioSete tempos são necessários para Rachel Rosalen orquestrar um duelo entre o real e o imaginário. A considerar seu repertório cênico, pode-se dizer que # 07 Ensaios sobre a Crueldade é organizado em sete atos. No primeiro ato, somos apresentados à protagonista dessa história que será contada em uma videoinstalação composta por dois canais. A inserção de frames de ilustrações de Alice, de Lewis Carroll, nos dá a pis...

Rachel Rosalen


Tony Camargo
Muito já foi dito sobre a relação de continuidade entre pintura e mundo, sobre o modo como tantos artistas modernos e contemporâneos extrapolaram os limites da tela e se relacionaram diretamente com a realidade para além do contorno inicial do suporte. Essa saída da pintura do plano para o espaço representou para alguns a sua morte e, para outros, a sua possibilidade de continuidade e desdobramento.O movimento presente no trabalho de Tony Camargo, especialmente nas pinturas sobre metacril...

Tony Camargo


Sustentabilidade
Os fragmentos de arquitetura presentes no trabalho de Geraldo Zamproni não são partes isoladas e perdidas de algum edifício singular e específico. Trata-se de elementos tão essenciais que poderiam integrar qualquer construção. Há neles um grau de abstração próximo da universalidade.Com quatro colunas e três degraus o artista pode sugerir, por exemplo, uma construção retangular com o piso elevado, um espaço qualquer que de fato não podemos habitar porque ele está apenas indicado....

Geraldo Zamproni


Nino Cais
Ao nos depararmos com o conjunto de colagens, ampliações e objetos tridimensionais que integram a mostra de Nino Cais, vemos uma série de imagens em que figuras têm a parte superior de seus corpos substituída por uma série de objetos, padrões decorativos, flores...A ideia de trabalhar sobre a cabeça de figuras remonta a trabalhos anteriores, nos quais o artista escondia e cobria cabeças com alguns objetos à mão, objetos de uso cotidiano. Talvez, por meio de procedimentos como esses, N...

Nino Cais


Junções
A pintura de Paul Cézanne se desenvolveu, antes de mais nada, ao contato direto com a natureza e as percepções que ela proporciona. As cores e luzes da paisagem de Provença foram primordiais para a obra que ele construiu durante toda sua vida. Famosa pelos artistas que nela viveram, essa região do sul da França é conhecida pelos tons alegres que derivam de sua luminosidade. Embora diferente do clima tropical por causa dos ventos mediterrâneos, o verão de Provença, assim como a boa pint...

Egidio Rocci


Lugares Moles
Ele pode ressaltar um aspecto da obra, fornecer elementos fundamentais à sua leitura ou apenas descrevê-la objetivamente. Se em alguns casos o título do trabalho cumpre uma função, digamos, mais burocrática, em outros é capaz de apontar relações e sugerir possibilidades de aproximação. Lugares Moles – nome dado à série de vídeos e fotografias que Jorge Menna Barreto apresenta no Paço das Artes – é um desses títulos sugestivos. Em primeiro lugar, pela imagem que a expressão ...

Jorge Menna Barreto


Um lugar fora dele
“O vento tem uma coisa. Ele tira de você todas as certezas, ele se intromete em você, contínuo, fazendo você sentir a fragilidade oculta de tudo que existe a seu redor, todo o recheio sólido de mil e um empreendimentos – tudo frágil, improvisado.” – Este é o narrador onisciente do romance A artista do corpo (2001), de Don DeLillo, falando. São poucas as coisas que fazem lembrar que temos um limite – que ao mesmo tempo é uma potência – chamado “corpo”: a d...

Milena Travassos


A Casa
Alan Fontes é um artista que pesquisa a linguagem pictórica na era da imagem técnica. Em um contexto pós-industrial, a pintura se caracteriza como pós-produção: vale-se do repertório cultural para resignificar, recombinar e reprogramar elementos da história da arte e do cotidiano. Trata-se de uma reciclagem estética que dá sentido e aumenta a sobrevivência dos objetos culturais que habitam em excesso –e, portanto, em contínuo processo de esquecimento– o imaginário contemporâne...

Alan Fontes


Alice Shintani
Há um quê de dissimulação nas pinturas de Alice Shintani. Se à primeira vista elas parecem animadas por uma beleza suave e desinteressada, como se pretendessem se passar por imagens dóceis ao olhar, uma observação mais detida logo substitui a impressão inicial por uma hesitação. Para além dos tons delicados e das formas vagas, há algo ali que não se deixa apreender. Uma dissonância silenciosa cujos vestígios apenas conseguimos entrever. Suas pinturas exibem uma espécie de econom...

Alice Shintani


Rescue Smoke
"Para explicar entropia [Robert Smithson] nos pede para imaginarmos uma caixa de areia, onde há, de um lado, areia branca, e de outro, areia preta. Um menino começa a correr pela caixa toda em sentido horário misturando os grãos brancos com os pretos. Alguém lhe pede para correr no sentido contrário, anti-horário. Isso certamente nada fará para reverter o movimento à uniformidade e recolocar as duas cores em campos separados. Suas pernas continuam agitando a poeira cinza e o processo de...

Camila Sposati


Still
É no caráter experimental do tempo – nas obras, na construção da memória – em que se baseiam os registros da paisagem em STIIL, exposição de Marcelo Moscheta para o Paço das Artes. Há um trajeto a ser percorrido em cada obra, mas sua duração baseia-se no instante distendido da contemplação e formação do pensamento evocado pelas imagens. Elas exigem um olhar alongado que se forma nos interstícios, fora do alcance dos olhos comuns que só conseguem enxergar a aparência, o que ...

Marcelo Moscheta


Golem
Bataille sempre mostrou um profundo desgosto pela hipocrisia da exclusão e pelos mecanismos de apagamento e rejeição do olhar. Para o filósofo francês, a força centrípeta da sociedade não é a de atração, mas a de repulsão, na medida em que se repugnam as sobras e restos da cultura do excesso, relegando seu lixo à invisibilidade e assim purificando-a, mantendo seu funcionamento numa lógica do que ele chama de abjeção social. Na elaboração de Kristeva, cinco décadas mais tarde, ...

Camille Kachani


O performer
Nem todos que olham o bebê atrás do vidro, nesta mistura de bebês que os berçários friamente proporcionam, têm noção de mais este clic! no mundo, um algo a mais do que simplesmente o pequeno cuspe da Natureza que os bebês costumam ser. E quando ele arregala os olhos ainda cinzentos e meio cegos, mesmo que não enxergue quase nada (e nem saiba ainda relacionar-se com o pouco que enxerga), inaugura minimamente mais um olhar que de alguma forma irá tocar para a frente as curiosidades...

Fabio Morais


Abstração e referência
O lugar do trabalho de Carla Zaccagnini nem sempre é um só. Por vezes, a proposição acontece em trânsito: quando não importa saída nem chegada, mas o que está e o que se passa entre um ponto e outro. Essa distância, a dilatar também o tempo da fruição, se apresenta como um intervalo, um lapso ou uma incongruência entre a imagem do trabalho e os caminhos a serem percorridos por indução desta mesma imagem. O que existe para ver é elemento propulsor, não o fim. Nada do que se ofere...

Carla Zaccagnini


Dos sem teto
A primeira vista, a instalação de Josely Carvalho alude a questões construtivas e parece referir-se a uma herança minimal. Afinal, a obra é composta do puro e simples empilhamento de 3500 telhas, dispostas de forma cilíndrica sobre o chão. O trabalho se apresenta como uma construção. Utilizando o material primordial de uma habitação - seu teto, feito de telhas de barro - a artista propõe ao observador uma arquitetura retirada diretamente da vida. Revela as telhas empilhadas e ar...

Josely Carvalho


Interiores
A artista Ana Elisa Egreja, 26, vem discutindo há cinco anos os limites da pintura decorativa através da reprodução de diferentes padronagens em óleo sobre tela, suporte com o qual trabalha incessantemente. Suas inspirações e referências nascem das fontes mais diversas: rendas Chantilly francesas, azulejos hidráulicos cubanos e sua paixão e atração pela beleza dos animais, para citar algumas. Destas pinceladas surgem relações harmônicas e sem hierarquias entre fundo e figura, em c...

Ana Elisa Egreja


Cidade flutuante
Embora habitem terras tão distantes quanto areia e papel, as cidades construídas por Pedro Varela em seus trabalhos são como desdobramentos de uma só. Atrevo-me a chamá-la Varela, em referência aos lugares narrados por Marco Polo ao conquistador mongol Kublai Khan em As cidades invisíveis, de Italo Calvino. Se visitada pelo famoso viajante veneziano, Varela chamaria a atenção por suas distintas conformações. O desenho das ruas, a arquitetura das casas, a invenção dos edifícios, a m...

Pedro Varela


Futebol, Deus e outras mumunhas
É estranho conversar com Rafael Campos Rocha. Seu conhecimento sobre história da arte e sua presença de espírito produzem a ilusão de um bate-papo comum, mas logo se percebe: é um artista criando. De modo mais sutil e inteligente do que a performance interativa convencional, como de Marina Abramovic no MoMA (The artist is present), sua presença se faz através da fala. Seja na mesa de bar, na sala de aula ou no debate público, é cômodo crer que se discute futebol, pintura ou filosofia,...

Rafael Campos Rocha


Viagem pitoresca através do espaço ao redor da minha casa
Do cerrado dos campos de PiratiningaDaniel Caballero em entrevista concedida por e-mail a Marcio Harum entre fevereiro e março de 2012:MH: A tua formação é resultado direto do teu trabalho com a ilustração, Daniel. Como você explica essa passagem da ilustração ao campo da produção artística na tua trajetória?DC: Minha formação é decorrente de vários interesses, alguns mais dificeis de associar à minha produção, como po...

Daniel Caballero


Construção
“Amou daquela vez como se fosse máquinaBeijou sua mulher como se fosse lógicoErgueu no patamar quatro paredes flácidasSentou pra descansar como se fosse um pássaroE flutuou no ar como se fosse um príncipeE se acabou no chão feito um pacote bêbadoMorreu na contra-mão atrapalhando o sábado”Construção (Chico Buarque)Construção é o ato ou o processo, individual ou coletivo, de construir. E é isso que parece interessar a Felippe Moraes: não o que se constrói, o produto final, mas...

Felippe Moraes


Tatiana Blass
Em 1948, prestes a inaugurar uma grande exposição no Museu de arte da Filadélfia, Henri Matisse, em carta para o então diretor da instituição, Henry Clifford, manifestou preocupação com a suposta ausência de dificuldades de sua pintura: “Sempre tentei ocultar os meus esforços, sempre desejei que minhas obras tivessem a leveza e a alegria da primavera, que nunca nos permite suspeitar o trabalho que custou. Por isso, receios que os jovens, vendo em minha obra apenas uma facilidade apar...

Tatiana Blass


Clarabóia
É intrigante pensar que os pontos de luz que vemos no céu numa noite estrelada vêm de objetos que talvez não existam mais. A luz viajou por muito tempo, chegou aqui, mas o corpo celeste que a emitiu, nesse ínterim, pode ter desaparecido. A luz é indício de uma estrela que havia ali. Houve. A luz é como o eco. Chega a nosso corpo trazendo notícia de outro corpo, de outro tempo.Estela Sokol constrói objetos que emitem cor-luz naturalmente, sem fios, sem bateria, sem lâmpadas. É a pura ...

Estela Sokol


Quadro negro
Na série de fotografias que mostra nesta exposição, Caio Reisewitz aproxima dois espaços diversos: um dentro do museu e da universidade, outro fora de ambos. O Paço das Artes, duplamente resguardado pela aura do museu e por sua localização no campus da USP, é um local privilegiado para a apresentação destes registros fotográficos de lousas, tomados aqui e em outras partes da cidade, que Caio vem colecionando. A eficiência do quadro negro consiste em propiciar uma superfície esc...

Caio Reisewitz


Projéteis
Reunidos pela primeira vez, os mais de 300 desenhos feitos por Carmela Gross desde 1978, revelam o movimento circular existente em sua obra. Muitos deles são a gênese de objetos e instalações em sua carreira. Outros são desenhos esquemáticos de espaços onde a artista realizou exposição. Na obra de Carmela Gross não existe uma separação entre os desenhos e os objetos. Longe de ser apenas esboços ou projetos - ou ainda obras encerradas em si mesmas - são etapas de um processo de...

Carmela Gross


A vida dos outros: Parque Laje
A interação da vida carioca com o morro e o asfalto é exaltada ao máximo do voyeurismo no trabalho em fotografia A vida dos outros: Parque Laje (2010) de Elisa de Magalhães, selecionado para esta primeira exposição da Temporada de Projetos 2011. De sua própria janela residencial, entre centenas de shootings a distância das lentes que o seu aparato alcança, a artista reúne, penduradas desde o teto na montagem desta instalação aérea, em torno de 400 fotografias produzidas no período...

Elisa de Magalhães


Paisagens à margem
Não parece haver nada mais arbitrário do que afirmar que o espaço indicado pelo título da exposição de Lucas Arruda, Mariana Galender, Mariana Serri e Mariana Tassinari sinaliza especificidades que permitem a aproximação de suas produções. Trata-se de uma coletiva de dois pintores e duas fotógrafas que se reúnem há tempos, investigando de modo sistemático o lugar da paisagem na produção contemporânea. Mas, fossem evidentes ou imperceptíveis, essas especificidades anunciadas –...

Lucas Arruda, Mariana Galender, Mariana Serri e Mariana Tassinari


Percursos Simulados
A instalação Percursos simulados tem origem no projeto do mesmo nome das artistas Marina Camargo e Romy Pocztaruk desenvolvido desde 2007 e constituído pelos registros visuais e sonoros do espaço urbano de diferentes cidades, como Porto Alegre, Berlim, Nova York e Las Vegas. Como uma espécie de arquivo aberto, em processo constante de reedição, o conjunto traz à tona a experiência de deslocamento que caracteriza o olhar do sujeito contemporâneo, e pelo qual o observador é levado a exp...

Marina Camargo e Romy Pocztaruk


Invasão
Uma alteração da perspectiva do olhar é imperativa na obra Invasão, de Iara Freiberg. Dentro da instalação, estamos diante de um percurso arquitetônico miniaturizado que foi embutido nos painéis expositivos pela artista. “Diante” não é a locução correta; “acima” talvez seja mais apropriada, apesar de não designar com exatidão o ponto de vista do visitante. Trata-se de uma visada aérea, semelhante àquela que se tem da paisagem urbana observada de um ponto elevado da cidade...

Iara Freiberg


Espólio
Será que vale a pena colocar mais um objeto no mundo? Ainda há algo no mundo que mereça ser pintado? As dúvidas que antecediam cada obra do pintor canadense Philip Guston (1913-1980) também acompanham a produção de Rafael Alonso. O artista carioca parece nunca ter como ponto de partida a tela em branco. Daí o nome da exposição. Espólio é uma herança, um conjunto dos bens que são deixados por alguém ao morrer a ser partilhado no inventário entre os herdeiros ou legatários. É tam...

Rafael Alonso


Coluna Infinita (da série de Instabilidade)
A referência ao monumento criado por Brancusi na Romênia para os heróis da Primeira Guerra Mundial não precisa ser entendida como um ataque ao modernismo, mas como tomada de consciência sobre a impossibilidade da passagem entre a particularidade dos acontecimentos e a universalidade do sentido histórico. O serialismo da coluna de Brancusi é uma progressão para o infinito, embora a escultura obviamente seja finita. Ela tem 30 metros de altura. Mas pretende se desdobrar no tempo, não apen...

Lais Myrrha


Coreografia para figuras infláveis
Parece que todas as coisas do mundo, construídas ou não pelo homem, suportam mais significados do que aqueles que as definem e mais funções do que aquelas que desempenham sem nenhum esforço. E cabe, agora sim, sempre ao homem, a tarefa de encontrar essas outras verdades latentes. Talvez o homem seja antes um observador, um detector de pulsões e potências, do que um inventor. Ou talvez o invento não esteja em lascar ou polir uma pedra até chamá-Ia roda, mas em notar como uma pedra, já ...

Laura Belém


Sara Ramo
A linha de demarcação no centro do quadro indica uma dimensão ambivalente de mundo. Entre a chuva e o boneco de neve é o palco de dois acontecimentos em campos espelhados, que não se deixam abalar um pelo outro. Uma dupla ação se inicia. No campo esquerdo, uma bola desenha uma órbita incorruptível: é projetada sobre a parede, bate no chão e sai de quadro, para então voltar a ser projetada sobre a parede, pingar no chão e sair fora de quadro. Simultaneamente, à direita da tela, chov...

Sara Ramo


Sala de espera
Sala de espera François Quintin De rara qualidade cromática, as imagens de Janaina Tschäpe se confundem com a fineza e melancolia da pintura e da fotografia victorianas, o cinema neo-realista e os modos fragmentados de expressão contemporânea do vídeo e da fotografia. Suas imagens são produto direto da imaginação. A intensidade ficcional de suas obras e sua força narrativa contrastam com a simplicidade dos meios utilizados em suas encenações: décors naturais e acessórios ...

Janaina Tschäpe


Ninguém
As estéticas do esquecimento e da perda podem ser mapeadas em movimentos entre Walter Benjamin e Andreas Huyssen, ou entre Christian Boltanski e Rachel Whiteread, entre Emil Forman e Rosângela Rennó, ou ainda entre Elisabeth Bishop e valter hugo mãe. Com tantas genealogias visuais, literárias e filosóficas disponíveis a um link de distância, penso que, ao apresentar a obra de um artista nos tempos atuais, muito mais pertinente do que repisar possibilidades genealógicas é tratar da ling...

Ivan Grilo


A riscar
A obra de Daniela Seixas se pauta por uma investigação quase obsessiva sobre o desenho. No entanto, deve ser destacado que tal linguagem atua num campo expandido. Assim, vídeo, instalação, fotografia, obra sonora, livro e outros suportes são escolhidos pela artista carioca para ampliar o ato de traçar algo a lápis ou caneta sobre uma superfície de papel. Para a individual no Paço das Artes, Seixas produziu quatro séries de trabalhos, todos eles exemplares na intenção da artist...

Daniela Seixas


Você tem medo do quê?
Escrevendo de uma perspectiva anterior à difusão do terrorismo islâmico, Paul Virilio argumenta que a guerra consiste mais apropriar-se da imaterialidade dos campos de percepção do que em obter vitórias materiais - territoriais, econômicas. No atual contexto, essa tese só vem confirmar a dominação do mundo pelo arsenal de imagens do terrorismo, transformadas em espetáculo depois de 11 de setembro de 2001 . O terror marca o ponto de partida do projeto “Você tem medo do quê?”, qua...

Claudia Jaguaribe


Fluxograma: explorador – mergulhador
Empreendimentos imobiliários, cartões de visitas, contas, embalagens berrantes, revistas semanais sempre iguais, guia do bairro, disk-pizza. O material gráfico que circula pela vida mediana é desolador. Sempre igual, sempre banal, anuncia-se que está proibido criar novas formas de subjetividade. Parte da produção de Michel Zózimo é lançar panfletos, livros, selos, cartazes, anúncios que libertam possibilidades reprimidas de experiência do mundo. Se eu souber que existe uma menina que...

Michel Zózimo


Entre telas e redes
Entre bem organizados tubos, vidros, chassis, pinceis e diversos outros elementos do fazer pictórico, Paulo Almeida (São Paulo, 1977) vai construindo sua obra, sempre a discutir os sistemas e circuitos da arte contemporânea. Na maior parte do tempo, às vezes permanecendo quatro meses numa única série, fica em Lençóis Paulista, cidade próxima de Bauru, no interior paulista. Em alguns períodos, já utilizou o estúdio da galeria Leme, que o representa, para elaborar meticulosos quadros, ...

Paulo Almeida


Pavilhão das lebres
[WG] A seguir eu deixo algumas ideias meio soltas, mas que podem servir de aquecimento pra gente voltar à conversa. Lembrei-me da letra de Declare Independence, da Björk, em partes como “Proteja sua língua / Crie a sua própria bandeira / Não deixe que façam isso com você”. E acho que estabelece diálogo com algo contido nos Anos de Chumbo e na “energia” ou “potência” das latas laranja e do que elas guardariam.Além desse encanto de agora com uma noção de ‘tropical’, ser...

Walter Gam


Grana extra
[AC] No seu texto Micro empresa criativa, publicado no Canal Contemporâneo, você descreve de forma irônica e metafórica o seu processo criativo. Por que relacionar a sua produção com a idéia de empresa? [RT] Porque acredito que o meu trabalho faz parte de uma sequência produtiva. A minha matéria-prima é um produto. Eu trabalho esse produto para que ele avance mais um passo na sua história. Acho que eu não quero que meus objetos tenham muita autonomia, ou que sejam entendidos...

Rodrigo Torres


Dia de festa é véspera de dia de luto
Nosso tempo reveste-se de antinomias, que apenas aparentemente enquadramos como opostas: corpo e mente, fato e crença, real e fantasia. A razão ocidental, ao aplicar as concepções “esclarecedoras” àquilo que transcende, de caráter inapreensível, ao menos para a nossa vã consciência de mundo, sistematiza e abafa as vozes mais impulsivas, delegando-as a símbolos rasos para que possamos deglutir o surpreendente sem esforço. A princípio, como diz Agamben, a tarefa de nomear as c...

Bruno Vilela


Terreno
“...e os lírios nas margens de rios remotos, frios e solenes, numa tarde eterna no fundo de continentes verdadeiros. Sem mais nada contudo verdadeiros.” Fernando Pessoa “Não tenho outro modo de conhecer o corpo humano se não vivendo-o, isto é, assumindo por minha conta o drama que me atravessa e confundindo-me com ele.” Merleau-PontyO terreno no qual Carlos Mélo atua não é preparado senão por seu olhar arguto e sua capacidade ritualística de se empossar do espaço. O embate entr...

Carlos Mélo


Paisagem suspensa
“O brio do texto (sem o qual, em suma, não há texto) seria a sua vontade de fruição: lá onde precisamente ele excede a procura, ultrapassa a tagarelice, e através do qual tenta transbordar, forçar o embargo dos adjetivos – que são essas portas das linguagem por onde o ideológico e o imaginário penetram em grandes ondas.” Roland Barthes em O prazer do textoQuerido Pedro,Me pediram mais um texto sobre o teu trabalho. Será que querem que eu explique? Espero que não. Não sei expli...

Pedro Motta


Ciranda
São Paulo, segunda feira, 21 de maio de 2012, 9h30 da manhã de um dia nublado. Bartolomeo Gelpi me pegava em casa para que eu conhecesse seu ateliê. No banco de trás do carro, duas cadeiras para criança se camuflavam entre objetos pessoais e o material de trabalho do artista. No rádio, a trilha sonora de Siouxsie and the Banshees nos acompanhava no trajeto Vila Madalena – Carapicuíba. Passados aproximadamente 20 minutos, chegamos a seu ateliê, que fica numa linda casa, com paredes de v...

Bartolomeo Gelpi


Monroy’s performance service No.1 – Senhor Kosuth, o que você faria?
São Paulo, 5 de Julho de 2012 Caro Sr. Kosuth, Espero que esta carta o encontre bem. Sei que sua agenda é deveras atarefada e que provavelmente não gostará de ser incomodado com comentários que não digam respeito diretamente à sua própria contribuição intelectual e conceitual para o campo da arte, por isso peço desculpas e licença para escrever-lhe por conta do trabalho de um jovem artista colombiano de passagem pelo Brasil, pois pareceu-me indispensável. Fui convidad...

Carlos Monroy


Percursos/Vestígios
As artes da iluminação e da projeção nasceram há cerca de quatro séculos, com os teatros de luz de Giovanni delIa Porta e a lanterna mágica de Athanasius Kircher, embora já pudessem ser vislumbradas nas imagens transparentes e auto-iluminadas dos mosaicos bizantinos. O cinema não é senão o interregno mais conhecido dentro dessa longa história. Mas foram os artistas que souberam extrair todas as consequências do fenômeno do transporte da imagem através da luz e da dissolução de s...

Marie Ange Bordas


Albano Afonso
O corpo do espectador é invadido pelas árvores, ilumina-se e, ao mesmo tempo em que subtrai luz, joga sombras sobre a imagem do bosque de pinheiros que brilha ao fundo da sala escura. O visitante está, a um só tempo, bloqueando parcialmente a visão da obra, integrando-se a ela e tornando-a visível para um segundo observador. Na instalação criada por Albano Afonso para esta Temporada de Projetos, bastam presença e deslocamento para desestruturar toda a cena. Semelhante operação de...

Albano Afonso


Experiência de desaceleração
Durante dois anos, dois meses e dois dias, a partir da data que dá título a este texto, Henry David Thoreau retirou-se do ambiente em que se encontrava desde que nasceu para exercitar uma vida sem grandes confortos, pelo menos no que concerne àqueles relativos ao que a sociedade da época mantinha ou aspirava. Algo que de lá para cá teria sido intensificado por hábitos que redesenharam a identidade do sujeito moderno, com ofertas e promessas pseudoemancipadoras veiculadas pela sociedade de...

Bruno Kurru


Sobre a Virgem
O processo criativo de Caetano Dias é pautado por uma regularidade e coerência perceptível em toda sua obra, fundado na noção da desconstrução. E essa noção, aqui, pode ser entendida como decompor ou destruir o objeto/imagem para identificar e repotencializar sua multiplicidade de significados, desfazendo os dogmas pré-estabelecidos pela ideologia ou pela convenção. Esta orientação se evidencia desde a produção pictórica do artista – ‘forja’ para seu pensamento em arte - ...

Caetano Dias


Arquiteturas Subjetivas
Quatro artistas decididos a demolir paredes: do ateliê, da casa, do inconsciente, do fotograma. Os trabalhos de Amilcar Packer, Domitilia Coelho, Odires Mlászho e Paulo D'Alessandro apresentados nesta exposição - feita pelo Paço das Artes em parceria com a Galeria Vermelho - provocam uma incômoda consciência sobre a condição urbana hoje, a experiência de viver e produzir arte em uma megacidade como São Paulo, a relação entre corpo e espaço, além do questionamento sobre os limites ...

Odires Mlászho


Gabinete
NB O que atraiu seu interesse por apresentar animais mutilados?VM Antes mesmo de desenhar/pintar animais deformados, me interessava muito notar que algumas pessoas humanizam seus bichos; isso me intrigava e despertava curiosidade. Em 2009 adotei meus dois cachorros, e nessa relação próxima com meus bichos, percebi que se algo de ruim acontecesse a alguns deles, eu ficaria muito abalado. Percebi neles um depositário de sentimentos, de uma humanidade, que nem sempre eu praticava para com outra...

Vitor Mizael


Fauna
Duas práticas incomuns ao universo da arte contemporânea, e em tudo estranhas à cultura brasileira tradicional, são convocadas por Lia Chaia para esta exposição no Paço das Artes: o tangram e a topiaria. Esta, na base dos jardins franceses e japoneses, é a arte de interferir na configuração das plantas e transformá-Ias em esculturas por meio de um processo de poda; aquela, surgida na China antiga, se baseia na combinação de sete peças geométricas, o que possibilita a criação de ...

Lia Chaia


Projetos para finais felizes
GB Durante o período de formação na FAAP você trabalhou com cenografia. Como você acha que essa experiência contribuiu ou influenciou sua produção naquela época? Pergunto isso pensando principalmente nas obras Na companhia dos objetos (2008-2009) e A casa em festa (2009-2010). FJ Quando realizei a série Na companhia dos objetos, percebi que o meu procedimento com as fotografias "encenadas”, era também uma organização que me remetia a práticas elaboradas durante o raciocínio de a...

Flávia Junqueira


Sistema relacional
No aparente caos de peças espalhadas, há nas pinturas de Paulo Nimer Pjota um equilíbrio perfeito. O artista salpica suas telas com elementos minúsculos, distribuindo peso pela superfície. Se cada uma das pequenas imagens pesasse alguns gramas, a grande pintura não tombaria para nenhum lado. É um tabuleiro branco e um artista distribuindo pesinhos que mantêm as peças do jogo no lugar. Quem é o artista? Vejamos. Alguém chega no ateliê, vê a composição começada, as levezas espalhad...

Paulo Nimer PJota


Fähigkeiten
Fernando Oliva entrevista a artista Fernanda RappaFO Uma das preocupações centrais da sua produção parece ser a relação do homem e a cultura, de um lado, com a natureza, de outro. Um distanciamento cada vez maior entre eles. Esse afastamento passaria, em grande medida, por uma domesticação da natureza, naquilo que ela tem de incontrolável e muitas vezes selvagem. Isso me parece mais evidente na série Fähigkeiten. Você concorda? Por favor, poderia comentar, se possível citando outros...

Fernanda Rappa


Entre o Céu e a Terra, Bolhas
Texto para catálogo, texto para o site, texto para exposição, texto de parede, textos. “Há um excesso de discurso em torno da obra de arte contemporânea”, ouvi outro dia em uma palestra. Anotações par o texto: Não circunscrever. Não interpretar. Não traduzir. Ficar ali, junto, não sair do tom. DescreverPegar pedaços de madeira. Cortá-los, lixá-los. Pregar uns nos outros, procurando as junções mais retas, buscando o melhor encaixe. Ir emendando uma na outra, formando um caminh...

Rodrigo Sassi


Performance diária
No início de 2010 encontrei com Felipe por acaso na rua. Estava com minha bicicleta e ele a pé, então desci da bicicleta e fui levando-a enquanto conversávamos. Foi a primeira vez que ele me falou de Performance Diária. Disse a ele que poderia desenhar uma performance sobre aquele nosso encontro, com O performer levando a bicicleta para passear, assim como estávamos fazendo. Mas pensar em uma performance previamente seria como “roubar” a si próprio, disse Felipe. Foi então que e...

Felipe Bittencourt


Até que provem o contrário
Salvador, 26 de abril de 2013.Era julho.Chovia, mas nos comportávamos como se estivesse sol.Me via em um estado de expectativa para, afinal, ver tudo de perto. Na arte, se possibilidade houver, deve-se entrar em contato, compreende?Um corpo a corpo efetivo.Então, talvez, ocorra um encontro fortuito, articule-se um diálogo. Esse jogo, depende, entretanto, de uma série de fatores, nem sempre previsíveis, nem tampouco planejáveis.Por isso era importante estar ali, depois de tantas conversas f...

Rafael RG


Manhã
Amanheceu no trabalho de Edith Derdyk. Não é de estranhar que uma trajetória feita de saltos -basta pensar na transição da linha do plano para o espaço- desemboque, na presente exposição, em uma guinada do emaranhado e adensado negro à luminosidade e leveza do branco. Se o preto sobre branco era uma aposta na potência da obra de arte, na potência da inscrição da arte no mundo, o branco sobre branco funciona como uma espécie de impasse diante do campo da representação. Podia-se di...

Edith Derdyk


Cidade Partida
Paulo Miyada entrevista Ícaro Lira- Para reunir esses objetos e imagens, foi importante para você ir até Canudos?Foi fundamental, minha pesquisa está diretamente ligada com o trabalho de campo e o contato com os moradores da região. Estive lá três vezes nos últimos três anos e estou indo novamente agora em maio para a 3a Bienal da Bahia - inicialmente ficarei em Salvador pesquisando no arquivo público e depois algumas semanas vivendo em Canudos.Tenho vontade de num futuro próximo sair...

Ícaro Lira


Carrinhos (estudo)
Não falta muito para que estas peças se convertam em veículos de mão utilitários. Nem por isso o que as orna falíveis no aspecto funcional lhes impede a plenitude física. As esculturas que compõem a mostra de Chico Togni no Paço das Artes exercem as próprias imperfeições práticas na redução icônica de suas formas, até chegar à síntese de uma roda e um guidão, de uma roda e um puxador. O objetivo – se pudermos chamar assim – é representar e sugerir, em três dimensões, u...

Chico Togni


Aceiros
O trabalho de Juliano de Moraes é daqueles que provoca o público e o incita a refletir, seja por não se apresentar como algo explicável racionalmente, por não se franquear completamente à percepção, ou porque jamais poderá ser aproximado de um simples devaneio. Ao mesmo tempo em que se afasta de uma vertente estritamente conceitual, de modo algum sua pesquisa se reduz à solução de problemas apenas formais. Lidando com desenho, pintura, escultura e instalação, trata-se de uma invest...

Juliano de Moraes


Juliano de Moraes
A proposta aqui é um jogo, onde a forma é o instrumental para se estabelecer um campo de tensão em que algumas convicções, calçadas na fenomenologia do olhar, são abordadas e, por que não, abaladas.Juliano de Moraes apresenta uma reflexão acerca do processo da percepção em si, que se abre para um questionamento, mais amplo, de sistemas e pressupostos instituídos pela tradição, particularmente no que se refere aos aspectos cognitivos da percepção e do cond...

Juliano de Moraes


Limite
A conformação aparentemente parcial e provisória das peças que Mariana Lima apresenta nesta mostra é a síntese de efeitos que os próprios trabalhos experimentam na dificuldade de subsistir. Alguns não têm configuração permanente e devem ser refeitos a cada apresentação. Outros dão início a um impulso de vontade, sem demonstrar chances reais de cumprir os anseios que sugerem. Em comum, têm a integridade duvidosa. As esculturas com alusão a elementos arquitetônicos assumem sua fo...

Mariana Lima


Meca
Percorrer uma sala de museu envolve todo um ritual. Quando a exposição está cheia, as pessoas se enfileiram intuitivamente próximas às paredes para deter-se por não mais que um minuto, em respeito aos demais, diante de cada obra pendurada. Já as peças tridimensionais são foco de uma circulação também muito organizada e silenciosa, com eventuais movimentos dos visitantes de aproximação e afastamento da obra, formando um campo de força cujo núcleo de atração “magnética” é a...

Patricia Osses


O Marco Amador
O artista está suspenso a uns 20 centímetros do chão por quatro ganchos presos nas costas. Uma anã vestida de boneca o embala enquanto a câmera executa um lento travelling, ininterruptamente, ao redor da cena. Performance privada de Paulo Meira que aconteceu no Observatório Cultural Torre Malakoff, Recife, em 2004, a obra em vídeo alia três características essenciais do trabalho do artista: o pensamento pictórico, sobretudo em sua relação temporal, a prática que ele persegue estetic...

Paulo Meira


Os riscos de E.V.A.
“Se uma pedra cai, essa pedra existe, houve uma força que faz com que essa pedra caísse, um lugar de onde ela caiu, um lugar por onde ela caiu – acho que nada escapa à natureza do fato, a não ser o próprio mistério do fato.” Clarisse Lispector, Perto do coração selvagemArrancar o corpo para fora do corpo num gesto de salvação da morte, e fazer desse gesto a produção das coisas criadas e descobertas, eis a condicionalidade do processo de pesquisa artística de Oriana Duarte...

Oriana Duarte


Alexandre da Cunha
“O negócio hoje em dia é que quando você está casado, você não precisa nem sair de casa quando está afim de alguma coisinha especial. Arranja o que se quer sem sair da intimidade do lar" Don DeLillo, Ruído Branco (1984).“Take me out tonight/ Where there's music and there's people / And they're young and alive / Driving in your car/ I never never want to go home / Because I haven't got one / Anymore"The Smiths, There is a Light that Never Goes Out (1987).Em 20...

Alexandre da Cunha


Mantenha distância
Mantenha sua distância (nós não a queremos!)Roy AscottÉ nossa aparente distância das coisas que nos proporciona a certeza e a ilusão de possuirmos uma identidade separada. A conectividade, por outro lado, pode embaçar essas distinções, tornando o ser mais maleável, ambíguo e indefinido. Distância é diferenciação. É também uma ferramenta de controle utilizada na interação social em toda uma gama de situações, das ruas às hierarquias da política e da religião. É só por ma...

Katia Maciel


Canteiro de Obras
Na metade da década de 1970, o governo federal iniciou as obras do que seria a maior usina hidrelétrica inteiramente brasileira: a Usina de Tucuruí, instalada no rio Tocantins, no Pará. Concebida em meio à retórica de um país que afirmava sua auto-imagem como se ainda estivesse na iminência de integrar o seleto clube das nações desenvolvidas, sob a égide de um Estado endividado, mas que investia em grandes projetos que sustentariam o crescimento econômico para a região norte e, assi...

Ana Holck


Identificador
Identificador1. Código presente nas contas de luz. 2. Exposição que aconteceu em resultado à estreita convivência entre os artistas Mabe Bethônico, Nydia Negromonte e Roberto Bethônico com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), onde eles buscaram subsídios para o desenvolvimento de suas pesquisas individuais, dialogando com as especificidades daquele contexto. Pluralidade1. Trabalho em grupo onde cada um explora um terreno distinto. 2. Exploração de campos dist...

Mabe Bethônico, Rodrigo Bethônico e Nydia Negromonte


Tempo = ação/espaço
O projeto de André Komatsu é menos uma obra acabada do que um processo que se desenvolve no tempo. Ele não chega a se construir como uma narrativa, já que não há personagens ou acontecimento que se encadeiam em série. Trata-se apenas de dois momentos: o primeiro, o incêndio da estrutura de uma pequena casa construída ao ar livre, e o segundo, o recolhimento das cinzas e a transferência delas para uma caixa entro do espaço expositivo.O trabalho não forma um sistema fechado em que a mu...

André Komatsu


Miolo de Quadra
Com Miolo de Quadra (2004), Tatiana Ferraz instaurou uma visão privilegiada da paisagem urbana em um quintal sombrio no coração da Vila Madalena: um belvedere que virava do avesso o espaço expositivo do Ateliê 397 e punha o espectador no ponto de observação de alguém que caminhasse pelos telhados das casas do bairro. Pedestres retificados são um foco de atenção e imaginação permanentes da artista. O vigia de lojas de comércio popular, sentado em seu "belvedere" para fiscalizar a ci...

Tatiana Ferraz


Sem Título
Em toda a obra de José Guedes há uma constante manifestação de diálogo e confronto entre a cor e a imagem. Transitando por vários suportes, sua obra visa gerar novos significados estéticos, a partir da experimentação com a linguagem pictórica. Entender a obra de José Guedes é mergulhar no universo dos caminhos que se bifurcam em um grande labirinto, formado por inúmeras facetas e veredas. Sua obra coloca em debate desde as questões que dizem respeito à linguagem pictórica at...

José Guedes


Maria Brígida Fernandes (ou Silvio Tavares)
O artista Silvio Tavares fez uma passagem marcante pela arte. Silvio começou em 1998 - quando deixou de atuar no campo da psicanálise (obteve o título de mestre em Teoria Psicanalítica, nesse mesmo ano, pela UFRJ) -, a partir de indagações que surgiram ao ver uma exposição do consagrado artista Nelson Leirner no XVI S-alão Nacional de Artes Plásticas, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). E terminou em dezembro de 2004, quando faleceu, precocemente, aos 34 anos...

Silvio Tavares


Errar é humano
"Encontrei este tecido listrado que me permitiu fazer, em primeiro lugar, uma crítica pessoal e, em seguida, uma critica radical das obras de arte - reduzindo minha própria atividade a alguma coisa desesperada, quase nula: uma pintura que não é mais nada senão uma ponta de tecido bem visível, pois ele não é nem branco, nem bege, nem listrado, e sobre o qual há um traço de pintura cada vez mais reduzido. Eu queria fazer alguma coisa neutra, Impessoal." Daniel Buren É o acaso ...

Roger Barnabé


Paisagem #4
Uma parede totalmente pintada de azul (céu), seguida de outra, repleta de pequenos textos escritos sobre sua superfície branca e de outra azul (mar). As demais paredes contínuas trazem monotipias, desenhos e mais monotipias. Essa é a visão que o espectador tem, à primeira vista, da exposição "Paisagem # 4", do paulistano Fábio Tremonte, no Paço das Artes. A ideia de horizonte, dada, especialmente, às grandes áreas azuis, parece ser uma pista sobre esse trabalho de Tremonte. A qu...

Fábio Tremonte


Teresa Viana
São quatro os mitos fundadores do discurso modernista, segundo Yve-Alain Bois e Rosalind Krauss. O postulado de que as artes visuais, especialmente a pintura, dirigem-se unicamente ao sentido da visão é o primeiro deles. A “tatilidade” a que toda a história da arte se refere não passa da representação visual desta qualidade, fazendo com que tudo o que é tátil possa ser apreendido em um instante pelo olhar, o que constitui o segundo postulado. Além disso, o “puramente visual” da...

Teresa Viana


Teresa Viana
A pintura para Teresa Viana é o estabelecimento das relações entre matéria e cor, uma indissociavelmente ligada à outra. O uso da encáustica lhe garante a cor vibrante e opaca, densa e maleável. Propõe também a superfície espessa e de textura generosa. Sem buscar similaridade com as cores do mundo, busca não a luminosidade cromática e etérea, mas a cor concretizada em massa pastosa, que se metamorfoseia em outra, ambas saturadas, sem a contaminação das tonalidades médias. Superf...

Teresa Viana


Não quero nem ver
Qualquer tentativa de nomear ou rotular a obra de Lenora de Barros é empreitada difícil e perigosa. Como identificar a sua produção? Poesia? Performance? Arte conceitual? Nomear é fixar, e fixar é perder a qualidade diferencial. Apesar de ser uma obra que transita em diferentes territórios, ela se situa nos entremeios. "Não quero nem ver", título da obra-exposição, apresentada no Paço das Artes, convida o leitor a tatear "sentidos sentidos" que se entrelaçam em constelações de pal...

Lenora de Barros


Narrativa Presença Ausência
A pintura de paisagens aparece no período helenístico da arte grega com os pintores de murais, de acordo com o historiador Ernest Gombrich em seu livro A História da Arte.Mas o gênero paisagem floresce no seio da arte holandesa dos séculos XVII e XVIII, período em que terá destaque também a pintura de vistas ou panoramas. Na segunda metade do século XIX, esse gênero se transforma nas mãos de impressionistas como Claude Monet, Edouard Manet e Camile Pissarro: a paisagem da pintura hola...

Marga Puntel


Fernanda Chieco
Informações técnicas Em atlas e enciclopédias médicas, o corpo humano pode ser definido como um conjunto de sistemas com finalidades específicas, coordenados entre si de maneira a manter a saúde e a vida. A organização do corpo humano é objeto de estudo de Fernanda Chieco, mas o equilíbrio e a saúde de seus corpos dependem de uma ordem diversa à sinalizada nos compêndios. A obra da artista paulista traz explicações próprias sobre como os sistemas - seus órgãos e canais constit...

Fernanda Chieco


Bruno Vieira
Quem for à exposição de Bruno Vieira, no Paço das Artes, não vai encontrar trabalho algum dele. Os encontros com a produção do artista não se dão com hora marcada: costumam ser fortuitos, casuais, e, às vezes, passar despercebidos. Você não visita uma obra de Vieira, é a obra que visita você. Você não assimila uma obra dele, é contaminado por ela sem nem perceber. Todas as peças expostas no Paço foram concebidas para outros meios e têm uma ligação orgânica com estes meios....

Bruno Vieira


Marcellvs L.
Um homem surge ao longe, atravessa um rio, água na altura do pescoço, sai pela margem, continua a caminhar decididamente na direção do espectador, sai pela esquerda. Fim.Uma simples, quase banal, mas incisiva e profunda operação de deslocamento. As transformações que acontecem no tempo e no percurso — ou melhor, pelo tempo e por meio do percurso — são a matéria pulsante de que se utiliza o artista mineiro Marcellvs L. em seu vídeo de número 0778, também conhecido por man.ro...

Marcellvs L.


Information show: détournement pour rouge
A figura do autor como aquele que produz articulações formais ou de ideias corre em paralelo às noções modernas de artista e de curador na arte contemporânea. O artista não é mais somente o criador de peças artísticas nem o curador, mero organizador de acervos. Cada vez mais, pelo menos desde Courbet (Realismo, 1853), artistas preparam exposições, as próprias ou não. E quando a curadoria é uma seleção de obras alheias, o resultado pode ser tanto uma coletiva quanto uma individua...

Armando Mattos


Apartamento
Na ação Caminhada ao redor da casa, Cristina Ribas realiza percursos aleatórios de afastamento/aproximação de sua própria residência, enquanto recolhe objetos, como tijolos, pedras, pedaços de cerâmica, porcelana e toda espécie de refugo da cidade, que geralmente passaria despercebido. Em seguida dá início a uma espécie de catalogação, uma "falsa arqueologia", que pressupõe o convívio com esses elementos. A artista se reapropria dos objetos fundamentalmente pelo tempo que ela pa...

Cristina Ribas


Até que a morte
Beth Moysés é uma manipuladora de mitos. Particularmente, mitos que tomam corpo nas palavras bordadas à tapeçaria do universo feminino: casamento, amor, romantismo. Um a um, esses nomes parecem esgarçar, desfiar e ecoar no vazio em cada um de seus trabalhos. Toda a obra da artista é perpassada por uma preocupação desmistificadora. No início dos anos 90, ela usou buchas e meias de seda para discutir ligações entre sexualidade, sujeira e clichês. A partir de 1994, assumiu o vestid...

Beth Moysés


Beth Moysés
É como o dia do casamento para a noiva. Memória do afeto é uma obra de apenas algumas horas de duração mas tem o impacto do meteoro que nocauteia  o Papa na famosa instalação de Maurizio Cattelan. Isso acontece em vários trabalhos efêmeros de Beth Moysés. A comparação com o artista italiano é propositada: em Ausência de alma (1998), que permaneceu dois únicos dias na Catedral da Sé, um vestido de noiva, moldado em resina, encenava um corpo caído e contorcido de dor. O assom...

Beth Moysés


Daniel Trench
Valdrada, uma das “cidades invisíveis” descritas por Marco Pólo ao imperador mongol Kublai Khan, na obra de Ítalo Calvino, foi construída à beira de um lago, em cujas águas se reflete outra Valdrada, de cabeça para baixo. “Nada existe e nada acontece na primeira sem que se repita na segunda”. Nem por isso as “cidades gêmeas” são iguais. O que se passa acima do lago ganha correspondente invertido no reflexo. A arquitetura e toda ação ali ambientada têm imagem especular, ma...

Daniel Trench


Desconstrução fotográfica
A diversificação de meios e suportes empreendida pelo neoconcretismo e pelas vertentes neofigurativas do Brasil, na segunda metade do século passado, aprofundou as pesquisas sobre a construção, a difusão e a manipulação da imagem. As linguagens estão em desenvolvimento, com tendência para o objeto e para a tomada de consciência em relação a problemas sociais, éticos e políticos, desembocaram nas experiências com a participação (corporal, semântica e visual) do espectador. Os c...

Cesar Oiticica Filho


Gonper Museum - work in progress
É difícil elaborar a primeira frase de um texto a respeito da obra de Fabiano Gonper depois de a crítica E. Zofren ter criado a sua: “Escrever no domingo à noite não é fácil, só quando se tem uma arma apontada para sua cabeça” – discorrendo, em seguida, sobre a série Pinturas variáveis, de Gonper. Em uma quinta-feira chuvosa, com um museu imaginário na cabeça, de repente a escrita dispara.A segunda frase, em torno da qual há menores expectativas, parece mais exeqüível: a ob...

Fabiano Gonper


Máquinas de ver I
Há muito investigando o universo da tecnologia a serviço das artes visuais, era quase inevitável que as trajetórias de Daniela Kutschat e Rejane Cantoni se cruzassem, restrito que é este campo de atuação. E desde que tal fato se deu, somaram-se inquietações em comum; seriamente envolvidas com suas pesquisas e com um sólido background reforçado por incursões no exterior - mais que um plus, uma real necessidade para os que aqui atuam num segmento que envolve equipamentos de última ger...

Daniela Kutschat e Rejane Cantoni


Geraldo Souza Dias
Trabalhos recentes de Geraldo Souza Dias, feitos de minúsculas telas, fazem parte de um arquivo pessoal, um diário em que o artista registra diversos eventos e cenas de seu cotidiano. Pequeninas pinturas apresentam retratos, auto-retratos, referências da arte, paisagens, letras, recortes de jornal e imagens inusitadas como a de um tigre ou de um filtro de barro. Entretanto, não se pode dizer que todas estejam expostas, a maioria não se deixa contemplar facilmente. A sua função no con...

Geraldo Souza Dias


André de Faria
A repetição ritualística é um sintoma cultural que visa ora a lembrança ora o apagamento, ora ambos. No contexto da arte, o elemento industrial é imediatamente evocado quando se fala em série ou na possibilidade de multiplicação de um objeto único, seja no minimalismo, seja na serigrafia warholiana. Mas também aí se trata de articular a necessidade e a banalização do múltiplo. Neste campo árido de questões, André de Faria propõe a reprodutibilidade da imagem de uma suposta ín...

André de Faria


Helena Martins-Costa
“Tudo naquelas primeiras imagens era organizado para durar; não só os grupos incomparáveis formados quando as pessoas se reuniam, e cujo desaparecimento talvez seja um dos sintomas mais precisos do que ocorreu na sociedade na segunda metade do século, mas as próprias dobras de um vestuário, nessas imagens, duram mais tempo. Observe-se o casaco de Schelling, na foto que dele se preservou. Com toda certeza, esse casaco se tornou tão imortal quanto o filósofo: as formas que ele assumiu no...

Helena Martins-Costa


Olhar de Laura
Em uma sucessão de reflexos frenéticos, a obra de Cacá Bratke põe em jogo a constituição primeira do olhar e da identidade. Ninguém se lembra, mas até os seis meses de idade somos incapazes de apreender imagens. A psicanálise nos ensina que a imagem que o bebê tem de seu próprio corpo, por exemplo, é toda fragmentada: os pequenos dedos que ele movimenta diante de seus olhos não lhe pertencem, mas o seio que o alimenta não pode ser senão uma parte dele. A etapa do espelho, como a c...

Cacá Bratke


Rogério Ghomes
Ocupando uma grande superfície com um padrão decorativo em estrutura modular, que ornamenta o chão do espaço expositivo, Rogério Ghomes aborda um tema recorrente em sua trajetória, a angústia da constatação da fragilidade da vida. Formado em desenho industrial, o artista aplica o padrão criado em uma espécie de carpete, que pode ser pisado pelo público. Se a repetição e a superexposição de uma mesma imagem dilui sua carga trágica e retira seu aspecto sacro e aurático, ela poder...

Rogério Ghomes


Ocupação
O presente trabalho de Lali Krotoszynski para a Temporada de Projetos, seduzido pelos fabulosos recursos tecnológicos, investiga as relações entre a dança e a participação dos espectadores. Sensores espalhados no espaço e acionados aleatoriamente pelo público ativam a execução de pequenas trilhas sonoras. Essas peças musicais, compostas por Beth Bento especialmente para o projeto a partir de uma série de pequenos vídeos, em que a artista dança envolvida no silêncio, estão montada...

Lali Krotoszynski


Projeção
"Muitas vezes me acontecera de topar os olhos por acaso, num espelho, com alguém que estava me vendo naquele mesmo espelho. Eu não me via no espelho e era visto; assim como o outro não se via, mas via meu rosto e se via olhando por mim. Se eu avançasse a ponto de poder me ver no espelho, talvez ainda pudesse ser visto pelo outro, mas eu não, não teria mais podido vê-lo Não se pode ao mesmo tempo ver-se e ver que um outro está nos olhando no mesmo espelho." Luigi Pirandelo. Um, nenhum. c...

Raquel Kogan


Estratigrafia
Liliane Benetti entrevista Erica FerrariLiliane Benetti: Estratigrafia, nome desta mostra, é um termo emprestado da Geologia que se refere ao estudo dos extratos rochosos que compõem a crosta terrestre e que busca estabelecer relações entre a disposição espacial das camadas e sua sucessão no tempo. Como você relaciona as obras apresentadas aqui, no Paço das Artes, com esse termo? Erica Ferrari: Cheguei no termo a partir da minha aflição constante em relação à perenidade das constru...

Erica Ferrari


Remediações
Há algumas décadas, a modernidade tem sido questionada nas mais variadas esferas. No âmbito da arte não seria diferente. Na esteira do pós-modernismo, o vago termo arte contemporânea passou a designar cada vez mais um distanciamento em relação à arte moderna. Mais recentemente, o termo arte global, muitas vezes empregado como sinônimo de arte contemporânea, viria aumentar ainda mais essa distância entre as práticas estéticas mais atuais e a tradição moderna. A proximidade geográ...

Beto Shwafaty


Úteros em fúria
O professor de comunicação e semiótica da PUC-SP Arlindo Machado tem uma boa tese para explicar a recorrência de temas íntimos, pertencentes à esfera da vida privada, em parte representativa da videoarte feita no Brasil. Em primeiro lugar, por ser um meio com imagem considerada de baixa resolução - se comparado à fotografia ou ao cinema -, o vídeo tende à decomposição dos motivos e ao recorte fragmentário da narrativa. A técnica determina a linguagem metonímica, em que os closes ...

Inês Cardoso e Lucila Meirelles


Céu tombado
Dar forma às coisas. Ideia estranha a sujeitos automatizados que pouco mais fazem com as mãos além de digitar. O que primeiro salta aos olhos na instalação Céu Tombado, de Claudio Cretti, é a forma da mão. Cada peça guarda a memória da moldagem e da tendência a se aninhar na superfície da palma e entre os dedos das mãos. Cada uma dá a ver as mutações sofridas até chegar àquela conformação desequilibrada que assumiram quando foram dispostas entre as fatias de costões de márm...

Claudio Cretti


Manoel Veiga
É no campo da abstração que transcorre a pesquisa pictórica de Manoel Veiga, configurando uma trajetória que parece ter alcançado, na presente produção, uma qualidade de originalidade que reafirma o grau de experimentação em sua prática. O artista chega a uma solução pictórica em que se vale de um processo prosaico e peculiar, por via do qual elabora suas composições atacando o suporte diretamente sobre o plano do chão. Tal decisão constitui um artifício para anular a aç...

Manoel Veiga


Rock: Rampa
Rock: Rampa de Thiago Bortolozzo para a Temporada de Projetos marca uma guinada em sua produção. Distante de formas desajeitadas e improvisadas, este trabalho, ao contrário da série Vital Brasil, não joga com o equilíbrio capenga e com a ausência de sustentação e solidez. A instabilidade que colunas e vigas revestidas de madeirite engendravam no espaço arquitetônico, em seus projetos anteriores, é aqui convertida em firmeza. Trata-se de rampas para o corpo e para o olhar do espe...

Thiago Bortolozzo


Assolamentos
a cidade sou eusou eu a cidade. Carlos Drummond de AndradeSão Paulo tem sido representada, desde antes de sua urbanização, por várias expressões artísticas. Hoje, essa metrópole inspira a produção de diversos jovens artistas - especialmente aqueles que desenvolvem suas poéticas no âmbito da fotografia. Alguns mostram a paisagem paulistana tal como era no séc. XIX lado a lado com sua paisagem atual. Outros a retratam revelando a beleza de suas ruas iluminadas repletas de vitrines. Ain...

Thiago Bortolozzo


IN/OUT Translúcido
Niura Machado Bellavinha chega novamente à cidade trazendo sua noção expandida do que é pintura, de como se pode fazê-Ia, do que se pode expressar e conhecer por meio dela. E não deixa de ser uma expressiva demonstração de energia, de sua obsessão em experimentar continuamente, que ela não se limite a reproduzir, em escala necessariamente menor, a grande exposição - "Ateliê em Movimento / Sabará_Mangueira" - que ela realizou no Rio de Janeiro, na Escola de Artes Visuais do Parque L...

Niura Bellavinha


Na Ponte
Na ponte mostra uma figura feminina em tons amarelados que nunca aparece se deslocando. A continuidade da ação é indicada apenas pela montagem de planos congelados. A metrópole apresenta-se imóvel, mas sons sugerem o trânsito. Dois componentes se integram: a passagem, acentuada pelos ruídos dos carros, e pura imobilidade. O sentido em que caminha a personagem nos escapa. Sua travessia parece nunca se encerrar devido também à estrutura do vídeo em loop, que impede uma narrativa convenci...

Gisela Motta


Entre
Qual é a melhor maneira de questionar a arte contemporânea, senão utilizando ela própria? É isso que o paranaense Luciano Mariussi vem fazendo nos últimos anos, valendo-se do vídeo como fonte desencadeadora desse questionamento. Dentro desse contexto, entre 1999 e 2002, realizou os vídeos Jogo para jogador inepto, Não entendo e Estética.Na presente videoinstalação – Entre (2002) – Mariussi mescla linguagens, como a cinematográfica e teatral. É o artista quem dirige a cena, empr...

Luciano Mariussi


Domitilia Coelho
“(...) As ruas da pequena São Paulo de 1900 enchiam-se de fios e de postes” (1). Trinta anos depois a cidadezinha transformava-se em metrópole. Hoje, megacidade, é palco do trabalho da fotógrafa Domitilia Coelho. As luzes da cidade à noite fascinam Domitilia, que sai acompanhada de sua máquina fotográfica para registrá-las. Especialmente as que iluminam vitrines são o foco das suas lentes. Domitilia percorre ruas em seu veículo buscando as vitrines que serão fotografadas; estacion...

Domitilia Coelho


Arquiteturas Subjetivas
Quatro artistas decididos a demolir paredes: do ateliê, da casa, do inconsciente, do fotograma. Os trabalhos de Amilcar Packer, Domitilia Coelho, Odires Mlászho e Paulo D'Alessandro apresentados nesta exposição - feita pelo Paço das Artes em parceria com a Galeria Vermelho - provocam uma incômoda consciência sobre a condição urbana hoje, a experiência de viver e produzir arte em uma megacidade como São Paulo, a relação entre corpo e espaço, além do questionamento sobre os limites ...

Domitilia Coelho


Paulo D'Alessandro
Utilizando a fotografia como meio, Paulo D'Alessandro desenvolve um trabalho que possui ao mesmo tempo um caráter construtivo, formal, combinado à imagens ambíguas e sem nitidez. Ainda que seja possível identificarmos essas imagens como fragmentos de edifícios, ruas, enfim, um cenário urbano; elas estão longe de ser um registro documental. Parecem por um lado, admitir uma certa parcela de acaso como em seu colorido particular, que não corresponde à realidade, resultado de uma superexpos...

Paulo D'Alessandro


Arquiteturas Subjetivas
Quatro artistas decididos a demolir paredes: do ateliê, da casa, do inconsciente, do fotograma. Os trabalhos de Amilcar Packer, Domitilia Coelho, Odires Mlászho e Paulo D'Alessandro apresentados nesta exposição - feita pelo Paço das Artes em parceria com a Galeria Vermelho - provocam uma incômoda consciência sobre a condição urbana hoje, a experiência de viver e produzir arte em uma megacidade como São Paulo, a relação entre corpo e espaço, além do questionamento sobre os limites ...

Paulo D'Alessandro


Arquiteturas Subjetivas
Quatro artistas decididos a demolir paredes: do ateliê, da casa, do inconsciente, do fotograma. Os trabalhos de Amilcar Packer, Domitilia Coelho, Odires Mlászho e Paulo D'Alessandro apresentados nesta exposição - feita pelo Paço das Artes em parceria com a Galeria Vermelho - provocam uma incômoda consciência sobre a condição urbana hoje, a experiência de viver e produzir arte em uma megacidade como São Paulo, a relação entre corpo e espaço, além do questionamento sobre os limites ...

Amilcar Packer


O espaço do desenho
Qual a área que esconde a liberdade de uma linha? relacionam-se universos do plano ao monte, arfam pulsares pelos interstícios. (...) Horácio Costa Na produção artística de Aline van Langendonck a gravura em metal, o desenho e a pintura tem sido os principais meios de expressão. As recentes gravuras de dimensões pequenas (14,5 x 15,5 cm) apresentam um desenho de qualidade intimista, composto por traços meticulosos. De maneira diversa, as intervenções que Langendonck vem real...

Aline van Langendonck


O espaço do desenho
Chega mais perto e contempla as palavras, cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra. Carlos Drummond de Andrade A vista diz muitas coisas de uma só vez, constatou Gaston Bachelard. E para fruir um conteúdo imagético-escrito é preciso aproximar-se, deter-se, como sugere o poeta Carlos Drummond de Andrade. O universo do desenho de Ana Teixeira é permeado por linhas e palavras: a linha delineia, a palavra torna-se imagem ora latente enquanto massa, ora intimista quando desven...

Ana Teixeira


Boxing Cuban Style
(...) toda esperanza perdida ahora que se llevantaba para acercarse aI vencedor y alzar los guantes hasta su cara, casi una caricia mientras Monzón le ponía los suyos en los hombros y otra vez se separaban, ahora sí para siempre, pensó Estévez, ahora para ya no encontrarse nunca más en un ring*.O boxe tem sido um dos focos da pesquisa visual de Ana Busto desde 1996. Primeiro, seu objeto foi o boxe profissional e amador nos EUA, país onde o esporte alcança sua máxima audi...

Ana Busto


Pool
Dentro e fora disputam luz e opacidade no filme "pool", de Jessika Miekeley. No fundo da água corpos brilham, enquanto no entorno da piscina figuram espectros humanos esmaecidos. Uma das questões aqui, fica claro, é a memória. A artista revisita fotografias (negativos revertidos em slides que, projetados em uma parede, ela re-registra em vídeo) de um domingo ensolarado, mas inverte a lógica dos suportes fotográfico e fílmico: condensa a narratividade da foto, faz o filme esconder mais do...

Jessika Miekeley


Rastros
Cristina Canale é uma artista triunfante no contexto da pintura brasileira. Descende de uma linhagem de pintores - a geração 80- que aparentemente teriam vindo para ficar, mas, anos depois, viram suas produções pulverizadas e datadas. Não fossem o conhecimento e a densidade, atributos intrínsecos a sua obra, certamente a artista teria sido apanhada pela obsolescência que estão enfrentando muitos pintores que emergiram da explosão da pintura informada pelo eixo Milão/Berlim dos anos 80...

Cristina Canale


Ricardo Carioba
Artista de muitos meios, Ricardo Carioba opta agora por estabelecer um tenso diálogo entre a videoinstalação e a pintura sobre madeira. Nesta exposição, ele parte de uma única forma, que podemos ver tanto como uma "janela estilhaçada" pop ou uma clássica configuração concretista - um passo adiante nas pesquisas estéticas de um concreto de primeira hora, Aluísio Carvão, em que a vibração ótica também empresta certos ritmos ao trabalho e a geometria delimita a cor, vermelhos e neg...

Ricardo Carioba


Paisagens da memória
O projeto Paisagens da Memória de Ana Michaelis forja lembranças de horizontes que dificilmente vimos, mas que se tornam tão atuais quanto nossas remotas recordações. Essa atualidade é efêmera, pois o tempo em seu trabalho é compreendido como um elemento veloz que apaga e liquida as imagens da memória. Partindo de fotografias enviadas por amigos, do olhar do outro sobre a natureza, a artista realiza pinturas de paisagens em preto e branco com fortes contrastes. Em seguida, uma cama...

Ana Michaelis


Mar pequeno
O Mar Pequeno, de Fabiano Marques nos coloca diante de um naufrágio, a obra de arte à deriva. Um sentimento de insulação se apodera do espectador, como já inspiravam trabalhos anteriores do artista, que põe em questão certo nomadismo visual, insinuando-se um espírito errante. A cena é bela quando vista pelo filtro das lentes no conforto do museu: cinco peças enredadas em um jogo de Sísifo em pleno mar. A força insular, aqui, vem da importância dos vazios (a amplitude da paisagem, os...

Fabiano Marques


Burocracia: la verdadera história
A partir de textos, fotografias e objetos Pier Stockholm constrói uma ficção em que aparecem elementos de sua biografia: um peruano que enfrentou os trâmites administrativos para ingressar no mestrado da ECA-USP. Usando alegorias e objetos simbólicos o artista narra ironicamente o surgimento da companhia Burocracia, montada pelos jovens empresários Bureu & Cracia - segundo a etimologia escritório do poder - e o misterioso assassinato de Cracia. A exposição traz a estratégia publici...

Pier Stockholm


Falha
Em seu fazer artístico, Renata Lucas parece pensar o espaço como matéria. Centrando seus interesses numa investigação acerca de elementos arquitetônicos, sua funcionalidade e a especificidade de seu contexto, inspira-se nos atributos espaciais de um local para realizar suas peças, em trabalhos que comentam e propõem novas relações com seu entorno. Partindo de uma percepção totalizada do espaço, por ela tornado campo de ação, Renata opera sobre o mesmo tomando-o não apenas como um...

Renata Lucas


Clockwork
Na instalação 60 Seconds in a Lifetime, de Cristina Barroso, a consciência da finitude, a impessoalidade e o racionalismo (noções relacionadas a centenas de tabelas de tempo simetricamente dispostas) são contrapostos às metáforas da transcendência e da ancestralidade (fotografias mostram sítios arqueológicos em Israel, na antiga região da Judéia). Esses emblemas da antiguidade funcionam como inserções pontuais no turbilhão frio e lógico das escalas, interrupções bruscas que ch...

Cristina Barroso


Tag 5
O conjunto de trabalhos apresentados por Daniel Whitaker no Paço das Artes é o resultado da tentativa de encontrar uma correlação entre a linguagem visual e o hipertexto. Os cinco blocos de fotografias são compostos mediante a justaposição de imagens e códigos de HTML (Hyper Text Markup Language). A informação correspondente a cada painel é fornecida no canto inferior esquerdo, bem como a indicação do percurso a ser seguido no espaço expositivo. Assim como esses intrincados código...

Daniel Whitaker


Alberti
A Natureza é uma esfera espantosa, cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma. Jorge Luis Borges. La esfera de Pascal. In Otras inquisiciones. Paisagem. Mitologia. Tecnologia. O que pode resultar da composição desses três elementos? Horizonte chão.Elyeser Szturm questiona a paisagem enquanto horizonte valendo-se de linguagens diversas: nas Túnicas de Nessus, grãos de terra ou partículas de muro aderem à fina manta de silicone. Em Alberti, quatro m...

Elyeser Szturm


Ars combinatoria
Montada por diversas vezes em museus e galerias, a série de trabalhos com peças de dominó, sempre apresenta novas características, formas e variações cromáticas, resultantes da manipulação e das alterações conceituais propostas em cada exposição. A disposição das peças obedecem a critérios pré-definidos e às variadas dicotomias como: organização e acaso, imprevisto e controle, construção e liberdade expressiva, objetividade e subjetividade, distribuição aleatória e mate...

José Patrício


O chão e as mesas
O título desta instalação de Ester Grinspum – O chão e as mesas –, de início, coloca um quê de familiaridade para o público. Afinal, esses nomes se referem a objetos que fazem parte do nosso cotidiano. Inclusive, são dados da realidade que, de tão comuns, assumem um grau de abstração tão grande que nem mesmo as lajotas mais repletas de ornamentos ou as mesas de design mais refinadas, conseguem resistir ao fluxo inexorável rumo à total invisibilidade.Porém, premeditadamente, a ...

Ester Grinspum


Esculpindo o espaço azul
Esculpir o espaço. A definição pode causar um certo estranhamento ou passar por uma descrição imprecisa da obra que se apresenta ao visitante. Um ambiente impregnado pelo azul, de linhas tencionadas, formando geometrias impressas no vazio que invadem a constelação, Esculpindo o espaço azul.Fortemente influenciado pelas estéticas construtivas, o artista desenvolve suas pesquisas desde o inicio de 1990, elaborando propostas contaminadas por variadas técnicas, sem, no entanto, assumi-las ...

João Carlos de Souza


Pattern nº 8
A artista confere significado ao uso das coordenadas horizontal e vertical (coletivo e individual; público e privado). Ela formata esse esquema em qualquer superfície, o que sugere tratar-se de uma estrutura expansiva ao infinito. Sua trama de relações, entretanto, não tem por objetivo uma harmonia dinâmica: ao esmaecer contornos, ao parodiar a rigidez, ao devolver a textura ao plano, a obra visa claramente a desarmonia.Desarmonia do legado moderno, bem entendido. Na instalação de Sheila...

Sheila Mann Hara


Carlos Pires
Uma faixa de substância indefinida avança no espaço expositivo, quase mimetizada no ambiente branco da sala e apenas percebida pela nuance tonal que a destaca da parede-suporte. Contamina todo o ambiente - tanto matéria inerte como o próprio espectador, que, à medida que adentra essa área, se dá conta de sua súbita condição não mais de observador passivo, mas de agente - voluntário ou não -, da experiência que Carlos Pires aqui propõe. Esta mancha-substância (anti-matéria?) per...

Carlos Pires


MariaLíviaTelmaFátimaNiceRosa
Artista movido por inquietações geradas no campo de tensões do cotidiano, Edney Antunes sempre se interessou por investigar questões de cunho social e comportamental. Em MariaLíviaTelmaFátimaNiceRosa (2000), obra recentemente exibida na última edição da Bienal do Mercosul e agora aqui exposta, Antunes retoma sua verve crítica, agora focada no universo feminino. A instalação compõe- se de três módulos, por assim dizer, integrados num único ambiente e estruturados da seguinte forma...

Edney Antunes


O sequestro da história
O corpo da obra de Edney Antunes parece se constituir de investigações acerca de aspectos que tangenciam o social e o comportamental, podendo eventualmente assimilar o discurso conceitual, sem no entanto incorrer, por este procedimento, em maiores compromissos com esta vertente. Interessando-se por aspectos diversos do contexto popular, o artista recorre ao repertório gerado pelo campo de tensões do cotidiano, para estabelecer leituras intercambiáveis com outras áreas da cultura. O tempero...

Edney Antunes


O Sonho - Hélice de Mãozinhas
A praia, para Frederico Dalton, é o espaço de investigação para a criação de uma narrativa visual e poética em que a produção de sentidos e significados múltiplos, de extrema sofisticação e complexidade estética, alia-se à simplicidade do meio tecnológico utilizado. A projeção de imagens, adotada como procedimento artístico, é um dos elementos constituintes da obra, articulando linguagens as mais variadas; a fotografia, a cinemática, a instalação e objetos que, agrupad...

Frederico Dalton


Frederico Dalton
Rio de Janeiro.Alguém observa ... E quem observa?Frederico Dalton.Ao percorrer a praia do Flamengo, o artista fotografa os banhistas, acrobatas de areia e vendedores. E seu olhar capta não somente o modus vivendi daqueles que são fotografados – representantes das minorias sociais - quando registra tais imagens cotidianas... Um banhista se lava em uma bica e o outro, ao seu lado, observa. Logo atrás, um rapaz dá um salto mortal enquanto numa carrocinha vende-se algo. O foco está nos banhi...

Frederico Dalton


remedos & remendos
“Às vezes me fascina toda a gama de informações que vivem latentes em mim.”  Júlio VillaniVivemos sob uma condição temporal inexorável que, às vezes, nos faz exagerar a dose de seriedade. A dimensão cíclica na qual nossos corpos e objetos estão inseridos estimula de modos distintos a própria consciência. Expansiva, esta consciência não cessa de inaugurar novos sentidos, alguns garantindo certo alento para a constatação nua e crua do concreto. E por que não brincar?Regr...

Júlio Villani


Solos
Solos é uma seleção dos desenhos de pisos que Adalgisa Campos vem colecionando há três anos. No Paço das Artes, os escolhidos são aqueles que a artista pôde encaixar na área de 80 m2 que a instituição oferece aos participantes da Temporada de Projetos, mantendo a escala 1: 1 adotada em todos os seus desenhos de chão. Parece impossível detectar o que esses pisos têm para merecerem estar em sua seleta coleção ou imaginar o que a faz deter-se a anotar o desenho específico do c...

Adalgisa Campos


Novidades revistas
Ao procurar um viés de leitura para essas três séries de obras recentes de Fabiana de Barros, uma questão possível recai sobre a maneira como se vincula um percurso artístico especialmente voltado para a intervenção e performance a trabalhos condicionados à densidade do espaço expositivo tradicional e que por isso têm de condensar propriedades dinâmicas na sincronia de um suporte bem mais estável. De outro modo, mesmo que se vá falar de criações em modalidades como o foto e insta...

Fabiana de Barros


Gustavo Rezende
Existem as obras de arte que são determinadas pelo espaço que ocupam e existem aquelas que inventam seu próprio espaço. Os trabalhos de Gustavo Rezende pertencem à segunda categoria. Isso porque aliam a sensibilidade contemporânea à herança moderna, embasamento teórico ao prazer da fatura, e uma constante inquietação a uma inconfundível identidade. Neste sentido, "Plumb e a Vastidão do Império", assim como "Taj Mahal e a Possibilidade do Amor na Era do Cubo Epistemológico", é uma...

Gustavo Rezende


Gilberto Mariotti
É no nicho das discussões acerca do embate entre a noção de real, representação, reprodução da obra e seu simulacro que se insere a pintura de Gilberto. Sua produção privilegia o discurso interno da obra, no sentido de seus quadros possuírem quase a necessidade de falar de si e por si, de remeterem à própria razão de existirem; problematizam a própria razão de serem realizados. Por conseguinte, aludem à sua condição de obra de arte e carga de significados a ela inerente, pass...

Gilberto Mariotti


Eldorado
É difícil se debruçar sobre a trajetória de Nelson Screnci e apreender claramente um mote para sua produção. O processo de pintar em si, e todas as instâncias nele compreendidas da concepção à prática, o embate com os materiais, o rigor esquemático, o exercício de equilíbrio que domina suas composições e ainda o desprendimento que configura seu vasto repertório, parecem denunciar um envolvimento com a fatura pictórica para além das instâncias de uma categorização possível....

Nelson Screnci


Marcos Chaves
Eclético: do grego eklekticós, de eklégein, escolher. Na exposição em que Marcos Chaves realizou as intervenções que deram origem às presentes fotografias, o título “Eclético” era uma alusão à arquitetura do Castelinho do Flamengo, um exemplo típico das construções da virada do século. Esse termo grego, entretanto, oferece um importante acesso à obra de Chaves, uma vez que o centro de sua produção reside, justamente, na operação básica da escolha e nas implicações des...

Marcos Chaves


Retratos falados
A instalação Retratos Falados é constituída de uma série de desenhos originários do trabalho que José Vilmar vem realizando, há mais de dez anos, nas delegacias de polícia da região mineira de Patos de Minas, como desenhista criminal. É nesse ambiente que as vítimas relatam os dados necessários para a confecção dos retratos de seus agressores anônimos. José Vilmar guarda em sua memória os rostos, as expressões, os gestos, os sentimentos e as emoções que afloram dos depoiment...

José Vilmar


O que está em Cima e o que está Embaixo
O que está em cima são frases confeccionadas em plotter, adesivadas nas estruturas triangulares que servem de suporte para luminárias do teto do espaço expositivo. O que está em baixo é uma projeção no piso destas mesmas frases, em movimento, que podem ser manipuladas pelo público-participante modificando sua forma gráfica, o ritmo e o tempo de exposição das palavras. Compondo o espaço, sons e ruídos se rearticulam a cada intervenção.A trajetória artística de Giancarlo Lorenci ...

Giancarlo Lorenci


Desenhando com terços
Todo desenho é registro. Quer seja registro de um ou de uma série de gestos, quer seja registro de um ponto de vista e de uma maneira de olhar. O desenho é sempre o resultado de um processo que é ainda passível de revisão entre os traços finalizados, ao contrário do que ocorre em outras manifestações das artes visuais em que o resultado aparece congelado, sem profundidade temporal. Há, entretanto, situações em que esse processo se sobrepõe e se afirma com mais força, em que o dese...

Márcia X


Tatuagens
Grandes temas centrais da arte e da vida humana: a ideia da transgressão da ordem – a saudade do paraíso perdido – a volta à unidade (Murilo Mendes). A volta à unidade por meio da busca da identidade. Nino Rezende discute a questão da identidade em suas séries fotográficas desde 1998, quando realizou a série Abschied (Despedida). Traduz suas inquietações ao registrar cenas do cotidiano dos jovens e dos movimentos urbanos em Berlim (onde vive) tais como o Gay Pride e Love Parad...

Nino Rezende


Futuros amantes
É em vão que dizemos o que vimos; o que vimos nunca reside no que dizemos. Michel Foucault…Há uma mulher, um homem. Uma escada, que talvez leve ao lugar onde talvez eles se encontrem, talvez secretamente, uma vez por semana, ou talvez mais do que isso, ou talvez nem isso, talvez nem se conheçam e talvez a escada não leve a leito nenhum. Ou talvez leve ao leito onde deita vestida a noiva que se despe na periferia do Rio ou Manaus…Imagens que sugerem antes um desfecho iminente do que...

Orlando Maneschy


Desenhos
Há a base que aqui está não para sustentar uma escultura, mas é apresentada como o próprio trabalho de arte. Na parte superior, como se algum sólido tivesse repousado ali durante um considerável espaço de tempo e impresso a marca de seu peso, as depressões que marcam a superfície fazem com que seja impossível que este objeto cumpra sua função original. Mas neste caso não devemos nos referir apenas ao paradoxo entre forma e função: ao operarmos no campo da arte, temos necessariame...

Marcius Galan


Círculos
o silêncio do sonhotraduzindouma imagem-movimentoque se desfazentre a verdade dos instantes Rodrigo Garcia LopesO olhar do pintor - aquele que observa com cuidado -, capaz de operar com vários matizes de cores e percebê-los surgindo nas veladuras, é o olhar de Vicente Martinez ao realizar suas obras com fita adesiva transparente sobre parede. O brilho da fita contra a opacidade da parede opera como o verniz sobre a tela. A luz sobre a superfície transparente, favorece o reflexo de diferente...

Vicente Martinez


Splace: episódios de geografia subjetiva
A câmara passa rapidamente por rochedos cinzentos e marrons, revelando apenas estruturas abstratas enquanto se ouve ao fundo uma música tradicional americana: "Children, go where I send thee”. Com delicadeza, a câmara faz um giro sobre uma paisagem rochosa desértica nas montanhas rugosas de alguma região do Oriente Médio, quando se sobrepõe a palavra "zero” seguida dos correspondentes em árabe, hebraico, iídiche e japonês. Sua sobreposição à maneira dos antigos dicionários poli...

Betty Leirner


Acúmulos
A poética de Mila Chiovatto parece ter sido sempre balizada pela ideia de destruição. E por destruição, para a artista, podem ser compreendidas intervenções em graus diversos: seja na interferência devastadora gerada pela ação da intempérie sobre objetos e imagens fotográficas como no gesto contido que retoca imagens sacras e de reminiscências familiares; ou ainda nos imprevisíveis efeitos que obtém através do uso de fogo sobre objetos, pinturas e imagens, em composições onde e...

Mila Milene Chiovatto


Luiz Hermano
Luiz Hermano teima manso. Sua obra decorre de um fazer nunca agressivo, porém, resistente a seu modo. Nem mesmo a grandiosidade que alcança em algumas de suas esculturas provém do enfrentamento decisivo com a matéria. Buscasse um enaltecimento da ação impositiva do artista e seu meio de expressão seria outro. Mas não. Faz da paciente reiteração do gesto seu jeito de construir. Suas peças são precárias, de uma precariedade que deriva dos materiais e do processo de construção que ut...

Luiz Hermano


Réquiem para Maria Rosa
Os problemas de identidade, subjetividade e diferença cultural no mundo contemporâneo são cada vez mais evidentes e atemporais. A narrativa visual apresentada por José de Quadros é mais que oportuna no momento em que "comemoramos" os 500 anos do descobrimento do Brasil. A arte procura caminhos e respostas para velhos questionamentos ainda não superados: a exploração, a sujeição e a dominação cultural, a religiosidade, o poder, o extermínio, a vida e a morte, que se sobrepõem a...

José de Quadros


Vestígios
O ensaio fotográfico Realidades Meramente Superficiais integra a série Vestígios que a artista vem desenvolvendo desde 1998, no curso de mestrado da ECA/USP, inspirado no conto A Imitação da Rosa de Clarice Lispector. Do texto ficcional para o texto visual é feito o registro como se houvesse naquele mesmo instante um deslocamento do olhar, criando uma multiplicidade de planos e pontos de vista. As sete imagens dispostas espacialmente em semicírculo, ocupam a mesma disposição em que ante...

Neide Jallageas


As práticas de morrer
Acompanho os trabalhos de Elisabete Perez, Mônica Rubinho, Raquel Garbelotti e Sidney Philocreon, há algum tempo, ainda como alunos do Curso de Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina. Observei com interesse a trajetória de cada um (coloco-me apenas como uma observadora atenta), o esforço e o empenho individualmente, e em outros momentos, nas conversas coletivas, a busca da poética visual de cada projeto. Os germes dos trabalhos já estavam ali visíveis: nas pinturas espessas de Elis...

Elisabete Perez


Condutores de limites
O artista subverte a noção central da ideia de campo pictórico, de pintura propriamente dita, criando caixas-módulos de acrílico transparente em que a experiência é deslocada da superfície da tela para o interior das caixas. Serialização e impacto gerado pela dimensão do trabalho (características primeiras da escultura minimalista) também são subvertidos quando o artista preenche o interior das caixas com canudos coloridos. O olhar é imediatamente levado para o interior do trabalh...

Fábio Noronha


Diário universal
Acompanho os trabalhos de Elisabete Perez, Mônica Rubinho, Raquel Garbelotti e Sidney Philocreon, há algum tempo, ainda como alunos do Curso de Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina. Observei com interesse a trajetória de cada um (coloco-me apenas como uma observadora atenta), o esforço e o empenho individualmente, e em outros momentos, nas conversas coletivas, a busca da poética visual de cada projeto. Os germes dos trabalhos já estavam ali visíveis: nas pinturas espessas de Elis...

Mônica Rubinho


Verde amarelo
O artista subverte a noção central da ideia de campo pictórico, de pintura propriamente dita, criando caixas-módulos de acrílico transparente em que a experiência é deslocada da superfície da tela para o interior das caixas. Serialização e impacto gerado pela dimensão do trabalho (características primeiras da escultura minimalista) também são subvertidos quando o artista preenche o interior das caixas com canudos coloridos. O olhar é imediatamente levado para o interior do trabalh...

Pazé


Fonte-1
Edilaine Cunha tem desenvolvido um trabalho - pinturas, esculturas, fotografias digitalizadas e instalações - que parte do espaço arquitetônico, comentando-o entretanto, a partir de ambientes íntimos e assim colocando em questão as relações travadas entre o homem e seu habitat. Seus espaços são muitas vezes não-funcionais ou incompletos, parecem evidenciar a impossibilidade da realização de alguns dos fundamentos básicos da arquitetura moderna, como a integração entre o espaço c...

Edilaine Cunha


Sidney Philocreon
Acompanho os trabalhos de Elisabete Perez, Mônica Rubinho, Raquel Garbelotti e Sidney Philocreon, há algum tempo, ainda como alunos do Curso de Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina. Observei com interesse a trajetória de cada um (coloco-me apenas como uma observadora atenta), o esforço e o empenho individualmente, e em outros momentos, nas conversas coletivas, a busca da poética visual de cada projeto. Os germes dos trabalhos já estavam ali visíveis: nas pinturas espessas de Elis...

Sidney Philocreon


Sem título #4
A revolução tecnológica da era digital introduziu no vocabulário da cultura visual popular a proliferação de imagens manipuladas, construídas ou alteradas no computador. Seja através dos anúncios publicitários, do cinema, da televisão ou da Internet, somos cotidianamente levados a nos relacionar com uma nova iconografia digital. Nos vídeos e fotografias de Leandro Lima e Gisela Motta, o uso de recursos tecnológicos está justamente ligado a seu caráter "popular". A familiaridade qu...

Leandro Lima e Gisela Motta


Rubedo
Alquimicamente, Feres Khoury interpreta estas suas obras sem que Nigredo, Albedo e Rubedo rubriquem manipulações que um adepto da Grande Obra seja instado a repetir, pois elidem o secreto. Nada nelas se exprimindo, se espremendo, os procedimentos só se analisam em circulações e cruzamentos que os expõem: públicas, as obras são da praça como falas feridas em outra praça, diferimento alegórico em que a alegorese tem no exemplo o tropo por que se paute, estando o que aqui se vê evidente...

Feres Khoury


Leda Catunda
A Leda abriu sua mapoteca. E foi tirando, uns depois de outros, muitos dos muitíssimos papéis que guarda, ou guardava, lá dentro. Desorientados. E foi empilhando um a um os desenhos, colagens, aquarelas e gravuras sobre uma pilha de alguma outra coisa, na mesa. E mostrando e comentando as colagens, onde diversos divertidos personagens e imagens já prontos se misturam, assim como as texturas e estampas dos tecidos já prontos de suas flácidas ou volumosas telas. E cada vez que mal acabávamo...

Leda Catunda


Ricardo Ramalho
O cenário em que se insere a produção artística contemporânea - tempos de pós-ismos, tautologias, esgotamento e revisão de fórmulas - permite, quando não exige, o questionamento de uma série de fatores a partir dos quais se dão algumas das discussões que ainda geram força motriz para estes mesmos processos. As relações entre circuito de arte e mercado, o "valor da arte" e a busca por um certo caráter de acessibilidade da mesma - quais sejam as nebulosas circunstâncias das tensõ...

Ricardo Ramalho


Traslados
Em primeiro lugar, Paula Trope trabalha a fotografia pura. Com câmera pinhole (que em espanhol é câmara de orifício puntual) elabora as suas imagens. Pode ignorar os tempos efemeríssimos dos obturadores industriais para estabelecer o seu próprio tempo: humano, interpessoal, e agora, transoceânico. Por não precisar "compor" um quadro (pois câmera de orifício puntual não tem visor), visualmente a artista molda todo o espaço captado em sua volta. Em outras palavras, ela "mexe" diretamen...

Paula Trope


Celina Yamauchi
“... permanecer na memória ponto por ponto, na sucessão das ruas e das casas ao longo das ruas e das portas e janelas das casas, apesar de não demonstrar particular beleza ou raridade. O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota." Italo Calvino Há um elemento fundamental e vital para a compreensão do universo da criação das paisagens fotográficas de Celina Yamauchi. ...

Celina Yamauchi


Toloméia
Quando se fecha um ciclo decorre um luto. A revelação da perda acontece através de sinais inusitados: a visão de uma série de sapatos alinhados evidentemente evoca o luto que o artista foca neste trabalho, mas as espumas onde desemboca finalmente o visitante em TOLOMÉIA falam de outra morte, que não está no fragmento de literatura que apoia a instalação ( o inferno gelado de Dante ). O outro luto aponta para a passagem de quem cumpre com esta exposição dez anos de trajetória. Neste ...

Tuca Stangarlin


Ágora
A comunicação e a possibilidade de reestruturação na ordem dos códigos de informação são questões centrais nos trabalhos de Eide Feldon. Mais recentemente, a artista vem investigando as relações intrínsecas aos significantes e aos significados, partindo do próprio corpo da matéria, que não coincidentemente também é veículo de informação. Nestes trabalhos, a artista opera com estas questões a partir da inserção de peças que integram sofisticados sistemas de telefonia celul...

Eide Feldon


Ritos de passagem
Nas obras que expõe nesta mostra, Samantha Moreira evidencia a existência e a distância entre dois espaços diversos: um dentro do museu, outro fora. Outdoor, os rolos de desenho se sucedem em linhas, um abaixo do outro, abaixo do outro, abaixo do outro, preenchendo a área dimensionada em função da distância e da velocidade com que passam os carros e ônibus por ali ou noutra parte da cidade. A eficiência do outdoor publicitário está em encontrar a equação exata que permite embu...

Samantha Moreira


Sweet Dreams
Na instalação "Sweet Dreams" penetram-se como na realidade psicológica, o espaço imaginário e o real. No palco é celebrado um sacrifício que se transforma numa fantasia dominante. O que se celebra é o culto do produto. Freud chama anima de aparelho de produção de imagem. Mas sobre a realidade ou irreal idade dessa imagem não há critério de discernimento. O sonhador não só produz como também é a vítima de suas fantasias. Doce como bala, o sonhador está grudado em seus sonhos. N...

Eva Castiel


Chuva
Uma questão espinhosa tem sido formulada ao depararmos artistas cujas poéticas se traduzem através da pintura: faz sentido pintar hoje em dia Como se insere a pintura na cena artística contemporânea?A mídia utilizada não importa, vale reforçar o interesse pelo núcleo poético do artista. Fazer arte é sobretudo resistir à banalização e ao consumo veloz de suas mídias, é sobrepor a primazia de um determinado universo à voracidade com que se move a relação circuito e mercado. Mari...

Marina Saleme


Diamantes
São referências constantes nas esculturas de João Loureiro questões surgidas de seu universo pessoal, povoado de memórias e objetos da infância. O artista se apropria da estrutura de alguns desses objetos como o "Puf" desmembrando-o em gomos com os quais constrói novas formas que se estendem pelo chão. Algumas das esculturas referem-se a questões do universo católico, abordado através do mobiliário da igreja. O banco, o genuflexório, o confessionário recebem releituras críticas, t...

João Loureiro


Silvia Mecozzi
Começou num atelier fora da cidade onde, fazendo contra ponto ao bucólico que via através da janela, usava fios de ferro com os quais costurava suas telas. Assim ficou por muito tempo na encruzilhada entre o verde e a força do mundo industrial. Não que soubesse disso na época. A posteriori é fácil teorizar. Mudou para a cidade, o verde foi substituido pelas casinhas da Vila Madalena. E o fio de ferro já não era mais contraponto à nova paisagem. Entre uma casa e outra, um galpão ...

Silvia Mecozzi


Mundo Invencível
Um relógio de sol feito de gelo. O nonsense de uma máquina cujo funcionamento é um meio de autodestruição. O sol é a peça dessa máquina em dois níveis, tanto é o parâmetro de medida para o tempo-duração, como instala o tempo-condições atmosféricas, numa interseção dos significados da palavra tempo. Mas essa interseção é provisória e frágil, logo trona-se batalha. O calor faz o instrumento de medida entrar em colapso. De fato, é no período desse colapso que o trabalh...

Luiz Cavalheiros


Sistema relacional
A arte, como qualquer outra manifestação humana, sempre necessitou de algum tipo de tecnologia. A relação entre arte e ciência sempre ocorreu com maior ou menor intensidade, porém as ferramentas tecnológicas e teóricas de cada época possibilitam aos artistas novas formas de (re)apresentação poética de conceitos já estabelecidos ou de conceitos novos, surgidos no mesmo contexto tecnológico e cultural dessas épocas. Há algum tempo, temos a visão do mundo e de nosso próp...

Adriana Gomes e Rosa Maria Gonçalves


Bonsai eletrônico
A instalação biotecnológica Bonsai eletrônico - Mimosa Pudica, que o artista multimídia Ivan David apresenta no Paço das Artes, investiga a interação entre a vida artificial/inorgânica do computador e os corpos biológicos/orgânicos de uma planta e do homem. Da máquina de Turing aos computadores de quinta geração ocorreram grandes transformações, em que os referenciais de tempo e de espaço atuam sobre todos os campos do saber e modificam de maneira irreversível, direta ou indire...

Ivan David


Jogo dos sete erros
"…é preciso citar a mais notável de todas leis da ciência, ou seja, que nada pode ser criado nem destruído, e que não há causa sem efeito (…) Quando a bola começa a saltar, possui certa quantidade de movimento, isto é, de potência ou energia, que desaparece quando ela para. É preciso pois demonstrar que a energia não foi destruída, mas sim que derivou para outro ponto; do contrário, e segundo a citada lei, a bola continuaria a saltar indefinidamente (…) A própria bola não é...

Chico Amaral


Retratos
Alexandra Pescuma conta que a primeira vez em que abordou a questão da infância em seu trabalho foi em um tríptico realizado em 1999. Cada uma das três imagens mostrava o corpo de um bebê banhado numa luz azulada; uma corda exageradamente brilhante atando uma mão a outra, e um pé ao outro, formando um conjunto de linhas que desenhavam polígonos de luz branca contra um fundo noturno. A crueldade dessas fotografias indicava, desde o princípio, que este não seria um tema fácil. Ao contr...

Alexandra Pescuma


Carlos Eduardo Uchôa
Contemplar as obras de Carlos Eduardo Uchôa é como deixar-se levar a um outro mundo, onde a luz ofusca e a imagem está muito além do aqui e agora. Em sua produção atual, formas escurecidas emanam de veladuras alvacentas. Causam-nos, quase sempre, a impressão de estarmos diante de uma figura humana, embora seja precipitado afirmá-lo, considerando que inúmeras associações podem ser estabelecidas à medida que o observador abstrai os elementos da tela. Nesse sentido, a figura h...

Carlos Eduardo Uchôa


Projeto Internos
O Projeto Internos, que Del Pilar Sallum apresenta nesta Temporada de Projetos, parte de uma pesquisa que a artista vem desenvolvendo com a utilização da técnica do rebatimento de imagens, dando sequencia à série Corpus, exibida na Galeria do Sesc, em 1998. O processo de produção dessas imagens se inicia com fotografias de pequenas seções do corpo da artista que são posteriormente digitalizadas e rebatidas no computador. A repetição desses segmentos, somada à grande escala da a...

Del Pilar Sallum


Análise do conteúdo estomacal de Fábio Carvalho
Suponhamos um mundo, ou um pedaço de mundo, que fosse só terra e água, em que víssemos os lagos inertes, os rios que correm seguidos por mais de si mesmos e o mar, que vem e volta e volta a vir. E às plantas e aos bichos só os conhecêssemos dentro de latas ou pacotes herméticos. Ainda assim, saberíamos que o tempo passa olhando as horas nos relógios - sempre que os intervalos entre uma observação e a próxima durassem mais que um segundo e menos que vinte e quatro horas (ou doze, par...

Fábio Carvalho


Alegoria do caos: Paço das Artes - Heliópolis
Josivan, Charliane, Dejanilton, Francielma, Gleidiane, Karlene e seus colegas Giliard, Clebson e Keluir são jovens da chamada "geração Heliópolis", nascidos ou criados na maior favela da cidade. Seus nomes surpreendem por serem estranhos, lembram os da ficção científica. A sonoridade insólita dos Vagnoel e Agdoeldon (notável a recorrência da letra L) torna difícil memorizá-Ios. O que significam? Perguntando a uns e outros, fica-se sabendo que são formas compósitas, mais das vezes p...

Lilian Amaral


Tomie Ohtake
O espaço é um campo de instabilidade em busca de repouso. Talvez como um mar agitado de Hokusai. Ou como a turbulência discreta das pinceladas curvas da pintura atual de Ohtake. O espaço, nesta obra do Paço, está povoado por grandes círculos brancos de metal. Os círculos se alçam à altura dos olhos e, em dados pontos, tocam o chão. São doze aros tortos, afligidos por uma deformação topológica que parece feita a mão pela artista. São aros que balançam, obedecendo ao toque do esp...

Tomie Ohtake


Limiar
As imagens produzidas por Edouard Fraipont apresentam um universo que não se propõe como registro do mundo visível, como "prova do real". Suas figuras são reconhecíveis, mas não identificáveis em sua singularidade e seus limites confundem-se com o espaço cromático que as envolve. Num movimento que parte do interior para o exterior, Fraipont projeta um mundo mental em seu trabalho para colocar em questão o homem e sua existência.Mas a imagem fotográfica é sobretudo o registro da luz ...

Edouard Fraipont


Paisagem Sonora
A poluição visual e sonora está tão incrustada em grandes cidades como São Paulo que é comum deixarmos de percebê-la. Estamos a tal ponto íntimo dos ruídos cotidianos que quase os ignoramos. Nossos sentidos são solicitados tantas vezes que acabam ficando um tanto intoxicados e anestesiados. Em casos extremos deixamos de escutar os sons mais delicados e com freqüência mais baixa. Por isso há quem sonhe com uma cidade silenciosa, e não à-toa recentemente a prefeitura de São Paulo t...

Pedro Palhares Fernandes


Preposformance II
Priscila Arantes entrevista o Grupo Práticas e Processos da Performance (3P)P: O Grupo Práticas e Processos da Performance (3P) é composto por quatro participantes: Carlos Eduardo Borges, Marcos Martins, Ricardo Mauricio Gonzaga e Yiftah Peled. O que motivou a formação do grupo? Como é o processo criação coletivo de vocês?3P: O grupo é formado por artistas-professores que buscam somar suas potencialidades para atingir objetivos maiores. Todos têm pesquisas individuais ligadas às prá...

Grupo Práticas e Processos da Performance (3P)


Série Negra - Makie
Mariano Klautau entrevista Yukie HoriM: A presença de outro artista, ou de seu universo criativo, parece ser o elemento fundador de uma obra no teu processo. Desde quando e como surgiu essa motivação?Y: Tenho pensado muito nessa recorrência de procedimento, também amigos que acompanham meus trabalhos têm me questionado a respeito e percebo que o assunto lhe intrigou também.Não sei se haveria algum marco preciso para essa presença de outros artistas como parte do trabalho. Na graduação...

Yukie Hori


Inferno verde
Rejane Cintrão entrevista Luísa Horta e Ricardo BurgarelliR: Qual a historia de Inferno Verde? Artistas: Inferno verde é uma pesquisa artística articulada a partir da construção de registros relativos à Colônia Penal de Clevelândia do Norte - campo de trabalho forçado instalado na região do Oiapoque (AP) na ocasião do regime de exceção instaurado pelo presidente brasileiro Arthur Bernardes (1922-1926). O estado de sítio foi instituído pelo Estado em resposta à ascensão dos movi...

Luísa Horta e Ricardo Burgarelli


Luz vermelha
Mario Gioia entrevista Fabio FlaksM: Trabalhamos juntos em sua individual Aéreos, em 2011. Desta para Luz Vermelha, a exposição de agora no Paço das Artes, o que acha que mais mudou?F: Aéreos foi uma exposição bem atípica. Nela, pela primeira vez, os trabalhos se voltaram para um espaço exterior, fiz uso de cor em grande parte das obras e trabalhei um tema que me permitiu uma pintura mais informal, fluida e menos rigorosa. Depois disso, me voltei novamente para temas que me permitissem ...

Fabio Flaks


Territórios forjados
Galciani Neves entrevista Andrey ZignnattoG: Sua história pessoal é um disparador para seu trabalho com o tijolo? Como você encara essa relação autobiográfica e ao mesmo tempo questionadora do que você praticava poeticamente?A: Desde a adolescência produzia pintura em tela, com conhecimentos acadêmicos e uma tendência modernista. Os resultados que alcançava por meio destes procedimentos tradicionais não mais respondiam às minhas expectativas e anseios, não me encontrava mais ali. T...

Andrey Zignnatto


Crentes e pregadores
Olivia Ardui entrevista Bárbara WagnerO projeto Crentes e Pregadores se apresenta como uma série de retratos frontais e posados de diferentes membros de igrejas evangélicas no interior e nas capitais de Pernambuco e Alagoas. A artificialidade da pose e a composição das fotografias remetem à alguns de seus trabalhos anteriores como Brasília Teimosa (2005 – 2007) ou ainda A Corte (2013). Em ambos casos, as fotografias foram realizadas em dois tempos. Durante um período, podendo se estend...

Bárbara Wagner


Piquetes Anônimos
Respostas e perguntas (e assim sucessivamente)Gustavo Ferro:PERCURSO Em 2011 participei da Mostra de Arte da Juventude de Ribeirão Preto e fui premiado com um projeto que consistia em realizar derivas no entorno urbano do SESC, em uma tentativa de reconhecer a cidade. Neste processo extraí alguns objetos das ruas e criei uma instalação que também era composta por desenhos de observação feitos sobre papéis que fui encontrando. Dentre os objetos estava o primeiro piquete, que cumpria a fun...

Gustavo Ferro


Infiltração
Júlio Martins entrevista Jimson VilelaJúlio Martins: Caro Jimson, lembro-me quando nos conhecemos e você, com muito entusiasmo, me fez observações interessantes sobre as seguintes frases de Jorge Luis Borges: "Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O...

Jimson Vilela


Minada
Cláudia Fazzolari entrevista Márcia Beatriz e/ou Jaque JoleneA entrevista a seguir pretende estabelecer dois níveis paralelos de interlocução: um com a criadora Márcia Beatriz e outro com a sua "criação" Jaque Jolene. Cabe recordar que Jaque Jolene é uma ficção de Márcia Beatriz, uma persona, uma aparição que surge como protagonista em recentes trabalhos da artista, seja em vídeo ou performance documentada. Desta forma, esclarecemos que algumas vezes essa entrevista será atravess...

Márcia Beatriz Granero


Psicossomáticos
A.N.: Os seus três trabalhos expostos na Temporada de Projetos – Confusion, On Shame e Externalizing Data – fazem parte de uma série chamada Psicossomáticos (que ao todo englobo sete obras). Sabe-se que a psicossomática é um termo da medicina que compreende efeitos sociais e psicológicos sobre processos orgânicos do corpo. Como os trabalhos ativam, ou melhor, ampliam a discussão sobre esta temática? A.F.: Os três trabalhos expostos foram criados através de prêmios de produção d...

Anaisa Franco


Projeto de ciclorama #2
São Paulo, vinte e dois de janeiro de dois mil e dezesseis“No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.”Jorge Luis Borges em “As ruínas circulares”.Querido Sergio,Depois do nosso recente encontro para conversarmos sobre seus trabalhos. Reafirmou, em mim, a ideia de que para além de alguns conceitos que seus trabalhos apontam – tais quais: simulacro, dispositivo, espaço/tempo –, há neles uma condição inevitável a ser considerada: o trabalho como acontecimento. Já não ...

Sergio Pinzón


Fora do lugar
V.S.: Fale um pouco da sua trajetória artística e do significado do trabalho apresentado no Paço das Artes no desenvolvimento da sua poética. Há uma continuidade de experimentos formais e/ou temáticas anteriores? Quais seriam os elementos principais dessa investigação artística?A.O.: No trabalho Fora do Lugar, é possível notar uma continuidade dos experimentos formais e/ou temáticos no qual venho desenvolvendo na minha poética artística, que se propõe investigar o uso da fotografi...

Alex Oliveira


investigações em VÍDEO:
- Então cortamos um trecho da conversa, sem início e final bem demarcados.- Eu acho que você deve construir minhas falas.- Você toma seu café com açúcar?- Sim. E leite.- Certo. Começamos nossa entrevista discorrendo sobre as decisões que constituem sua estratégia de construção. Sem deixar de fora todos aqueles ruídos do ambiente e da situação de conversa, o tipo de material que costuma ser apagado na edição. Faz todo sentido!- Um procedimento análo...

Raphaela Melsohn


Fissuras
G.B: A exposição no Paço das Artes inaugura uma vertente da sua investigação artística que tem a presença muito direta de documentos e da memória social, a partir de um recorte que você produziu do acervo do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Queria te pedir para falar sobre o processo de apropriação desse acervo, levando em conta o caráter mínimo da sua intervenção sobre os documentos, que são basicamente transpostos do papel ou microfilme originais para um novo supo...

Rafael Pagatini


Fundação
J.C.V.: Para começar, queria te pedir para contar rapidamente como surgiu e se desenvolveu a pesquisa que te levou à concepção da exposição que você apresenta no Paço das Artes. T.M.: De há um ano para cá venho me interessando por formas verticais: totens, árvores, colunas, menires, cariátides, obeliscos etc. Entretanto, cruzei-me com a referência a uma carta de 1945 endereçada por Luís Saia a Lúcio Costa, dando conta de uma dúvida relativa ao caminho a seguir para a recupe...

Tiago Mestre


330 (ou sobre uma única viagem)
No e-mail enviado por Camila Fialho e José Viana, eles me informavam: Nesse último mês, o trabalho se deu na Oficina Santa Terezinha, no pouco que resta da indústria na região portuária de Belém, junto com dois proprietários locais, um fundidor e três ajudantes. Não era a primeira vez que ouvia falar desse lugar. A existência dessa antiga metalúrgica, situada no Porto do Sal, na cidade velha, em Belém, já tinha chegado aos meus ouvidos por outros artistas que haviam trabalhado lá ...

RaioVerde (Camila F. e José V.)


Oficina botânica ordinária
M.M.: Normalmente as práticas ligadas ao campo das artes visuais são bastante solitárias. Há coletivos e parcerias, são, entretanto, uma minoria. O que os levou a trabalhar em dupla? Quais as motivações?B.O. e V.T.: O disparador da nossa produção conjunta foi um exercício hipotético de projeto para um jardim de uma casa em Foz do Iguaçu. Haviam duas plantas que escorriam pelas frestas do quintal e dos terrenos baldios da região: cosmo amarelo e erva de santa luzia. A partir delas, c...

Bruno O. e Victor Tozarin


Trishacrete
D.M.: Contem sobre o processo de criação do projeto Trishacrete. Qual foi o percurso de idealização deste trabalho? Por meio de que caminhos o olhar de vocês passou até chegar a esta curiosa e interessante associação entre os movimentos da performer norte-americana Trisha Brown, um dos emblemas do experimentalismo nas artes nos anos 1970, e um dos ícones da cultura de massa dos anos 1980, as Chacretes?G.S.: Trishacrete é um projeto sobre reperformance, arquivo, encontros entre leg...

Grasiele Sousa e Marina Takami


Trofologia
J.D.: Você poderia falar sobre quais questões, repertórios e discussões que o trabalho intitulado Trofologia suscita, e o que levou você a enveredar por essa pesquisa e colocar em operação tantas ações, camadas e marcas que o trabalho guarda? S.V.: Trofologia corresponde ao meu processo criativo, ou seja, um processo que, a rigor, está sempre em crescente… Eu, geralmente, tenho uma ideia, e essa ideia vai se desdobrando, vai tomando corpo e, geralmente, vou incorporando outros e...

Sérgio Vasconcelos


Frente à realidade, desisto
MF: Sempre que você fala de sua produção em vídeo, a história tem início no seu trabalho de pintura. Mas me parece existir uma diferença em relação a uma produção que faz do vídeo uma continuação da pesquisa de pintura, mas com um novo elemento – o movimento – como podemos ver, por exemplo, tanto em artistas que primeiro exploraram esse terreno audiovisual na década de 1970, como Raimundo Colares, Marcello Nitsche, quanto como um senso comum na boca de artistas que produzem fo...

Pontogor


Malungas
Juliana Gontijo: Como Malungas continua o projeto Leituras para mover o centro?Ana Hupe: O projeto Leituras para mover o centro partiu de uma relação minha com a literatura, como forma de me colocar no lugar do outro. Estava numa residência na África do Sul quando descobri, numa coletânea de contos de escritores africanos e afrodescendentes, um conto da escritora brasileira Conceição Evaristo. A história do conto ocorre num ônibus que vai da zona sul do Rio de Janeiro para uma favela na...

Ana Hupe


Protetores de proximidade humana (unidades Valsa e Beijo)
MH: Antes de entrarmos para falar do teu projeto para a Temporada 2017 do Paço das Artes, talvez fosse saudável voltarmos a um momento que chama bastante minha atenção na tua produção artística. Por favor, me explique, detalhadamente, a importância daquela superfície de acontecimentos no teu trabalho intitulado Um instante anterior à extrema violência, de 2015. RM: Um instante anterior à extrema violência foi feito junto com a Carolina Callegaro. Buscamos criar um tipo de obra no qu...

Renan Marcondes


Still Brazil
Abaixo, a entrevista concedida pelo artista Daniel Jablonski à crítica Nathalia Lavigne. Nathalia Lavigne: Queria começar perguntando sobre a ideia de narrativa, um aspecto forte no seu trabalho. Como é, neste projeto, partir do cinema, um meio em que ela existe por natureza, para desmembrar a trama e estrutura dos filmes completamente?Daniel Jablonski: Estava interessado em fazer uma contraleitura desses filmes. Porque há claramente ali a narrativa de ficção, mas é também possíve...

Daniel Jablonski


Pintura e Reciclagem: Tudo Junto e Misturado
Abaixo, a entrevista concedida por Alex dos Santos ao crítico Marcio Harum.O bate-papo foi feito em Jaboticabal no dia 15 de março de 2018 (um dia após a execução da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, relatora da Comissão da Intervenção).Marcio Harum: Quando você acha que começou a desenvolver o seu trabalho como artista? Como se deu, quando considera que passou a trabalhar com as artes plásticas? Com pintura, desenho, colagem. Explique este momento do teu começo.Alex dos S...

Alex dos Santos


O Aparato
Abaixo, as conversas entre o artista João GG e a crítica Ananda Carvalho durante os meses de fevereiro e março de 2018.João GG: Oi, Ananda! Você chegou a ler o “MAGMA”¹? O que achou?Ananda Carvalho: Oi, João! Eu já li o “MAGMA” sim e achei bem interessante como nossas referências e imaginários vão sendo ativadas e ganhando materialidades ao ler o texto conjugado com as imagens. Para mim, o que chama mais atenção são as possibilidades de aproximação entre elementos mais ...

João GG


Bermúdez: se extinguen las fieras?
Abaixo, o depoimento de Flavia Mielnik sobre a exposição “Bermúdez: se extinguen las fieras?” para a curadora Galciani Neves. Em novembro de 2016, no teatro de Lincoln, aprendi que Bermúdez é uma das onze cidades que integram o distrito de Lincoln, no interior da Argentina. Eu fazia parte de um grupo de onze artistas que se reuniram para trabalhar nas onze localidades daquele distrito, cada um em uma cidade. Para que cada artista pudesse escolher seu destino dos próximos dias, os ...

Flavia Mielnik


Superficções
Abaixo, a entrevista entre o artista Guerreiro do Divino Amor e a crítica Clarissa Diniz.A conversa foi realizada em abril de 2018, no ateliê do artista, no Rio de Janeiro, e trata de alguns aspectos caros à dimensão processual do projeto.Clarissa Diniz: Vamos começar pela invasão do superlativo na sua obra? Como é que o super surge? E como essa adjetivação louca que sustenta suas obras tensiona a linguagem científica que é emulada no projeto "Superficções"?Guerreiro ...

Guerreiro do Divino Amor


Exercício de Futurologia
Abaixo, a entrevista de Ismael Monticelli a Clarissa Diniz sobre a mostra “Exercício de Futurologia”.São muitos os golpes em curso. O assalto à democracia não se dá, como temos visto, sem o desmonte das instituições democráticas. Não apenas a democracia representativa, mas a própria ideia de espaço público parece ter suas premissas postas em xeque, num acelerado e irresponsável processo de desarticulação social que passa, inevitavelmente, pelas políti...

Ismael Monticelli


Audio-Guias para Brise-Soleil
Abaixo, a entrevista concedida pelo artista Felipe Braga para o crítico Diego Matos entre junho e julho de 2018. A conversa foi coordenada por uma troca sistemática de e-mails, acordada após reflexões e discussões entre os autores. De um roteiro inicial de perguntas, o resultado é consequência da dinâmica do diálogo, construído em intervalos de 48 horas entre cada pergunta e resposta.Diego Matos: O próprio nome do seu projeto, "Audio-guias para brise-soleil", parece sugerir ...

Felipe Braga


Miragem Cariri
Abaixo, a entrevista entre a artista Naiana Magalhães e o curador Diego Matos.A conversa entre os dois foi realizada ao longo de duas semanas, e esclarece ao público o projeto "Miragem  Cariri", agora apresentado no programa expositivo da Temporada de Projetos 2018 do Paço das Artes. Nessa troca, roteirizada  por meio de reflexões e ponderações, o leitor e o visitante da exposição terão condições de acessar as referências conceituais, históricas e formais do conjunto de&nb...

Naiana Magalhães


VISÃO PERIFÉRICA
Abaixo, a entrevista de Maíra Dietrich a Christine Mello sobre a mostra "VISÃO PERIFÉRICA".Quando imergimos na exposição "VISÃO PERIFÉRICA", de Maíra Dietrich, sustentamos algo, a princípio, insustentável: a coexistência de espaços simultâneos por meio de uma certa ”dispersão aguçada”. Como pequenos gestos  se constituem quando submetidos a forças insustentáveis? A presente pergunta pode nos ajudar a produzir relações diante  de uma experiência como es...

Maíra Dietrich


A história dos nossos gestos
Abaixo, a entrevista de Haroldo Saboia para a crítica Ana Maria Maia sobre a mostra "A história dos nossos gestos". Ana Maria Maia: Você me relatou pelo menos dois elementos que impulsionaram o início do projeto – a foto do operário tocando a mão da estátua de Juscelino Kubitschek no memorial feito em homenagem ao ex-presidente em Brasília e o livro de Câmara Cascudo, que, embora não apareça como citação direta nos trabalhos, dá título à mostra. Como você se posicion...

Haroldo Saboia


O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva
Abaixo, a entrevista de Bruno Novaes para a crítica Mirtes Marins de Oliveira sobre a mostra "O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de chuva".Mirtes Marins de Oliveira: Inicio perguntando sobre a origem de suas práticas artísticas. Parte da relevância dos trabalhos que realiza reside nos problemas que coloca diante de uma realidade social e política cada vez mais tensa a respeito das questões de sexualidade e gênero no ambiente escolar e na compreensão do papel d...

Bruno Novaes


Sussurra para que eu escute
Abaixo, a entrevista de Manuel Carvalho para o crítico Claudinei Roberto sobre a mostra "Sussurra para que eu escute".Preâmbulo necessário. Criado em 1970, o Paço das Artes é uma instituição cultural vinculada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo: o Paço existe, portanto, há 49 anos. Longevidade invulgar quando consideramos o descaso histórico geralmente dispensado à cultura do país. Descaso, aliás, já denunciado em pronunciamento por Mário de Andra...

Manuel Carvalho


Entre o azul e o que não me deixo/deixam esquecer
Abaixo, a entrevista de Juliana dos Santos para o crítico Claudinei Roberto sobre a mostra "O professor deverá ser o último a se retirar, mesmo nos dias de Entre o azul e o que não me deixo/deixam esquecer".Preâmbulo necessário à entrevista da artista. Há 23 anos, o programa Temporada de Projetos do Paço das Artes vem identificando e apoiando pesquisas que nos inteiram sobre o “estado da arte” no cenário contemporâneo brasileiro, iniciativa que é notável pela sua longevidade, va...

Juliana dos Santos


acerca do fracasso das formas
Abaixo, a entrevista do Coletivo Cartográfico, em companhia do artista Jorge Soledar, para o crítico Marcio Harum sobre a mostra "acerca do fracasso das formas".Marcio Harum: Gostaria que pudessem mencionar ao menos brevemente, quando, onde, por que e como viram-se reunidas sob a identidade artística Coletivo Cartográfico. E como se originou a vinda de Jorge como associado a esse projeto? Indago para que comentem mais especificamente sobre a natureza do trabalho apresentada por um grupo de d...

Coletivo Cartográfico + Jorge Soledar


  • Realização: